foto: Pixabay

Tem coisas na vida da gente que parecem só coisas da vida… Mas são tão especiais que você passa a olhar pra elas de outro jeito.


 

Vésperas de Natal, fui comprar papéis de presente. Na hora de pagar, fiquei pra trás porque duas mulheres que deixaram o carrinho guardando o lugar chegaram justo quando a caixa me chamou.

– Eu só tinha ido ali buscar uma coisa, as duas disseram.

-Ahã…

 

Não gostei, claro. Mas fingi de morta. Quando olhei pra lateral da fila, avistei uma senhora. A pepita dessa história. Ela era a terceira pessoa, depois de mim. Essa sim, tinha que passar na frente.

– A senhora tem a preferência, pode vir.

– Não, imagine… Eu posso esperar. Quem é velho tem tempo!

 

“Quem é velho tem tempo”, realmente, não é um jeito comum de enxergar as coisas… O moço que estava atrás de mim deu um jeito de se embolar e ela até pensou que estava na frente dele. Enquanto esperávamos, ela me contou que estava aliviada porque a loja tinha cesto com rodinhas. Aí, perguntei:

– E a senhora vai embora como?

– Andando.

– A senhora tá muito bem, hein!?

– Se eu te contar quantos anos tenho você não vai acreditar…

– Quantos?

– No-ven-ta e dois.

-Tô boba! Lúcida e autônoma… A senhora está de parabéns.

-Tenho três filhos com mais de 70!

 

Me encantei. E comecei a pensar na minha avó madrinha, que faleceu aos 86. Naquela hora, eu já tinha decidido que ia oferecer uma carona pra ela, mesmo nesse mundo em que a gente sempre desconfia de boas intenções. Imediatamente, dois caixas ficaram livres. Fomos uma pra cada lado. Quando a moça terminou de passar as minhas compras, percebi que eu estava desatenta, pensando na tal senhora.

Paguei e fui ao caixa dela.

– Vai ficar pesado. Eu estou querendo oferecer uma carona pra senhora.

-Não, de jeito nenhum! Você tem as suas coisas… Não vou te atrapalhar.

 

Saí inconformada, mas entendi que, talvez, ela preferisse não aceitar. Quando pisei na calçada, senti aquele bafo de calor na cara do primeiro dia de verão. Nem fui adiante.

-Oi, voltei. Quando a senhora sair lá fora e sentir o calor, vai ter um troço. Eu vou te esperar. A senhora vai mudar de ideia.

 

O próximo da fila era um casal, de uns 70 anos. O homem disse na hora, rindo:

-Acho melhor a senhora aceitar a carona, porque ela não vai sossegar!

Bem eu (risos). Quando ela terminou de pagar, nos apresentamos. Dona Tereza, então, acabou topando ir embora comigo. Na saída, a mulher do casal que estava na filha me disse, admirada:

-Parabéns pela iniciativa.

 

Receber esse elogio me fez pensar bastante, já que oferecer a carona foi natural pra mim. Mas, ao contar a história em casa, meu marido disse:

-As pessoas não param mais para observar o outro. Você prestou atenção e ainda ofereceu ajuda. É um conto.

Era só o começo da história que me trouxe muitas alegrias. Vou contar.

 

Assim que entramos no carro, pedi o endereço e expliquei que hoje a tecnologia me faria chegar facilmente. Mas dona Tereza ignorou as primeiras orientações do Waze e disse que eu podia confiar nas instruções dela. Curiosa como sou, fiz várias perguntas e descobri que, para ter 3 filhos com mais de 70 aos 92 anos, ela começou aos 19.

– Com 25 anos, eu já tinha 5 filhos. Tenho 5 filhos, 10 netos e 15 bisnetos.

– A senhora começou cedo. Mas que privilégio Dona Tereza, ter vivido para ver a família crescer assim. A senhora ficou viúva há muitos anos?

– Se meu marido estivesse vivo, teria mais de 100. Mas morreu há mais de 20 anos.

– E a senhora mora sozinha?

– Minha irmã, de 91, mora ao lado.

 

Enquanto seguia as orientações para chegar à rua, resolvi contar um pouco de mim.

-Sou jornalista, tenho 2 filhos e sempre trabalhei em televisão. Mas tem uns meses que saí de um trabalho antigo, na televisão, porque não estava legal e eu estava bem triste lá.

-Ah, é bom mesmo… Ficar parada um pouco, com mais tempo pra família.

-Bom, na verdade, eu quero voltar. Mas quero fazer algo que me dê mais prazer.

-Eu te entendo.

-Ah, e eu também tenho um blog no estadão.com.

– Eu leio o Estadão. É o único jornal que leio.

-Mas eu não estou no impresso, só na internet.

-Ah, minha irmã de 91 é que entende de internet. Eu não entendo nada.

-Mas a gente não precisa entender de tudo, né, Dona Tereza? Melhor gastar o tempo com o que gosta.

 

Já perto do destino final, ela me contou que, ao contrário de mim, que sou de BH, ela nasceu e foi criada em SP.

-Eu posso te dizer que poluição não mata velho! (Talvez ela não saiba que mata até criança, mas isso é outra história.)

-Ah, Dona Tereza, a senhora é toda fora da curva!

Chegamos.

Desci do carro pra pegar a sacola dela no banco de trás e, quando vi, ela já tinha descido e saído sozinha do carro.

-Já desceu, dona Tereza? Nem precisou de ajuda!

-Não tô morta, né?

 

Rimos.

Dei um abraço nela, enquanto ela me agradecia de novo, eu disse que o prazer tinha sido o meu. Desejei um Feliz Natal e um bom 2019.

Foi quando ela me deu um presente muito especial:

– Pra você também. E que Deus te dê um emprego bem supimpa!

 

Amei o “supimpa” e comecei a dançar na calçada, fazendo festa, na frente dela…

-Amém, dona Tereza!

-Ainda vou te ver na televisão! (Não é maravilhoso ter mais de 90 e olhar pro futuro? E eu aqui, administrando a minha urgência da alma.)

-Eu volto aqui pra te avisar!

-É casa 6!

 

Ela nem imagina, mas até isso ela fez: aos 92 anos, me mostrou que a gente não precisa ter (tanta) pressa. Essa pressa que nos deixa loucos, nos faz ter medo de não conseguir chegar aonde quer e nos faz perder a alegria no dia a dia, até quando um carrinho toma o nosso lugar na fila.

 

Em casa, todo mundo queria saber quem era a Dona Tereza. Mas me esqueci de tirar foto. Bem que valia um #lookdodia dela toda clássica e moderninha de vestido jeans, colar e sapatilha. Ou só uma #selfie mesmo, pra registrar a minha alegria. Tempos modernos esses.(risos)

 

Mas ela não é do tempo do smartphone e nem por isso deixou de ter histórias pra contar. Agora que já sei o caminho, uma hora volto para revê-la, contar as boas novas e fazer uma foto deixar de memória.

Que o espírito do Natal, de amor e de luz que habita em nós NUNCA morra.

Feliz Natal!

E que 2019 seja um ano bom, de saúde, alegria e colheita!

 

*Vem pro Mãe Sem Receita no Instagram @maesemreceita. Vem, gente!