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Depois que o meu filho caiu de uma árvore alta, poucos meses após ter um braço quebrado defendendo um chute surreal, toda vez que o telefone toca e ele está fora de casa, me bate aquela preocupação. Aconteceu de novo no último fim de semana. Só que a ligação, pra minha surpresa, era uma queixa. Já vou contar, mas preciso revelar logo de cara que o desfecho é surpreendente!

 

A mãe de um coleguinha do condomínio ligou, a pedido do marido dela, reclamando que meu filho – vou usar o verbo no condicional agora porque a história não se confirmou – teria cometido bullying contra o filho dela. Ao ouvir, imediatamente pensei: “Bullying é um ataque insistente, repetitivo. Se eles são amigos e nunca houve queixa — por mais errado que seja qualquer tipo de humilhação — o nome não é bullying”. Mas não cabia discutir, porque não ignoramos queixa. 

 

Enquanto ouvia, eu disse que estava surpresa porque em casa não há espaço para esse tipo de comportamento, já que não somos assim. Lembrei de uns anos atrás que tivemos um problema parecido na escola e combatemos pela raiz. Mas a mãe disse ainda que meu filho tinha empurrado o dela. Lembra que falei que o desfecho é surpreendente? Então, fica aí. 

 

Botei um casaco e saí enlouquecida. Meu marido chegou a dizer: “Esse menino não pode mais descer!”. Já tinha ficado uns dias em casa porque deixou inúmeras lições online sem fazer, fingindo que tinha feito. (É cada surpresa). Desci com o coração acelerado, o encontrei perto da saída do prédio, o peguei pelo braço e fomos até o prédio da outra família. Rafael dizia não entender o que estava acontecendo. Mas eu estava com tanta raiva que, pra mim, pareceu só cena. Pai e filho desceram. 

 

Tem um ditado que diz que em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Pois, nem a tal frase dá conta do desmonte do pai do menino, dentista, que há pouco tempo é também psicanalista. Até aquele dia, nós o admirávamos porque ele vive nas áreas comuns do condomínio marcando presença e acompanhando o que os meninos andam fazendo. Mas quando eu entendi a atitude dele nessa história — e vi além, ele ruiu pra mim.

Eu devo ter feito muito mais anos de análise que ele na vida. Ah, devo.

 

Antes do tal desmonte, mediei a conversa e pus em prática o que aprendi depois de muitos desafios, de muita análise, um filho bem diferente de mim, que eu amo, e de 12 anos de parentalidade ativa, buscando saídas para as questões que se impõem e que a gente não tem receita sobre o que fazer. Minha mãe, psicanalista há uns 30 anos, disse que fiz muito bem em ter tido disposição para descer e agir no ato. “Feito um juiz, apita na hora. Se não, depois, não adianta!”, comparou. 

 

Cheguei dizendo que desci porque não tínhamos gostado da historia e que eu queria ouví-lo. Era uma forma de mostrar pro meu filho que a gente não aceita. Pedi pro menino contar o que aconteceu e, depois, quis ouvir o acusado. Meu filho, no caso. 

Nunca me esqueço de uma vez em que, numa “acareação” dessas, só ouvi o acusador. E, depois, descobri que não tinha sido bem do tal jeito, mas não pude fazer nada porque “você não me deixou falar!”, como disse o Rafael na ocasião. Ali, aprendi.

 

Durante muito tempo na vida, eu tomava pra mim todas as responsabilidades, como se fosse culpada. E, muitas vezes, tive vontade de abrir um buraco no chão pra me enfiar dentro. Como mãe, estava condicionada a achar que, se o menino já tinha aprontado alguma vez, certeza que fez errado de novo. Felizmente, aprendi que nem sempre é assim. Não é que ele tenha virado um santo — isso eu sei, ao contrário de outros pais e mães — mas com educação perseverante e persistente, melhora. Também vivo aprendendo que tem coisas que fazem parte da idade. 

 

Pra tentar resumir – o mais surpreendente ainda não chegou! – ao deixar Rafael falar, descobri – e o pai também  – que quem começou com a humilhação por mensagens foi o filho dele! O print que a mãe me mandou (a meu pedido) pra comprovar a humilhação, não mostrava o que o filho dela dizia do meu. A gente entendeu o motivo, coisa de criança… Mas não teve bullying e, sobretudo, não teve empurrão! Aliás, o arranhão na barriga do menino que o pai trouxe na conversa era porque ele tinha se ralado ao pular um muro, junto com os outros. O pai parecia surpreso ao descobrir!

 

O curioso é que compraram a versão do filho de 12 anos e ligaram passando a fatura, sem desconfiar de nada. Aqui em casa, a minha luta é o contrário porque eu sempre desconfio. A conversa terminou bem, com as duas crianças entendendo o que poderiam ter feito diferente. E ali deixei claro que pais podem e devem ser capazes de mediar conflitos para ensinar valores. Mas a parte de arrepiar, nem eu nem Rafael conseguimos colocar na conversa. 

Meu filho tinha me contado antes deles descerem, mas não dei ouvidos porque estava com muita raiva. Voltando pra casa, ele repetiu que não tinha entendido porque o pai do menino foi à barraca de açaí onde eles estavam, dizendo coisas assim: “Rafael, aqui não é São Paulo não! Vai lá na Cidade de Deus pra você ver. Se você acha que sabe o que é malandragem, eu também sei e meu filho também vai saber! Eu vou ensiná-lo a tacar pedra… “ 

Peraí! O pai acreditou na versão do bullying e do empurrão, tomou as dores do filho e será – será? – que entendeu que precisava defender o menino fazendo ameaças? Olha…

Decidi escrever pra mãe. Na mensagem, reproduzi o relato dessa ameaça e disse que “fiquei preocupada com a história da malandragem e achei importante deixar registrado, porque meu filho ficou assustado.”

Faz cinco dias. Ela nunca me respondeu. 

 

Me solidarizo. Afinal, ela descobriu a verdade e ainda soube que o pai, que parecia ser super vigilante e atento, na verdade, enxerga o filho como frágil. Deve ser por isso, aliás, que ele está sempre entre os meninos. Ele próprio é incapaz de lidar com as limitações do filho. Por isso, acreditou na versão de bullying e intimidou outra criança. Pior: o que um pai ensina quando ameaça, como se tivesse os mesmos 12 anos?

Meu marido ficou maluco e já alertou: “Quando alguém falar assim com você, diga que é pra falar com o seu pai! Você é criança e foi ameaçado!”

 

Filho também vem pra nos mostrar que a gente não tem controle de tudo. Muito do que eles são é da personalidade deles, fruto das influências e do que aprendem na relação com quem educa. A gente também não tem controle se vão puxar pai ou mãe, mas o que vêem ensina – para o bem ou para o mal. Recentemente, numa conversa sobre outra criança, Rafael disse: “A mãe dele não conhece o filho que tem!” 

Sem pestanejar, respondi: “E eu, conheço?” 

 

Certamente, não tanto quanto gostaria. Por isso, sei que ainda vamos ter saias justas por aí, enquanto ele cresce. Mas se tem uma coisa que eu conheço bem é a mim mesma. Como conhecer um filho sem conhecer a si mesmo?

 

*Vem pro @eupriscilladepaula, que já foi @maesemreceita, no Instagram. Vem, gente!