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Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Ou, quase tudo, talvez. Tanto que, em algumas situações, não adianta tentar provar por A + B que uma visão está equivocada, porque depende de como a pessoa é capaz de enxergar. Ou de como quer ver. Os tempos atuais nos mostram isso com bastante clareza.

 

A história do Brasil, por exemplo, continua a ser contestada. Parece assunto velho. Mas não. O novo ministro da Educação Abraham Weintraub assumiu o cargo e, em entrevista exclusiva ao Estado, chamou o Golpe de 1964 de “contrarrevolução” e disse que não concorda em chamar de ditadura. Segundo ele, houve um regime de exceção. O ministro defendeu ainda que pais que recebem o Bolsa Família sejam processados e, “no limite”, percam o benefício em caso de filhos agressores. Pobre só se ferra.

 

Já o ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva chamou os 80 tiros do exército, que mataram o músico Evaldo Rosa na frente da mulher e do filho de 7 anos, no Rio, de “lamentável incidente”. Como pode, meu Deus? Alguém aí tem dúvida de que metralhar o carro de uma família é crime?

 

Com as forças de segurança sendo estimuladas por governantes a atirar, infelizmente, vamos ouvir isso com mais frequência. Ou, talvez, a gente nem escute nada. Diante desse absurdo que chocou o país, o presidente, por exemplo, não disse uma palavra sequer! Por outro lado, fez questão de se solidarizar com o humorista que foi condenado pela justiça por injúria contra a deputada federal Maria do Rosário. Dois pesos e duas medidas.

((atualização do trecho: Depois de seis dias de silêncio, Bolsonaro diz: “O Exército não matou ninguém”. Aí você entende porque pode ser melhor ficar calado.))

 

É ou não uma questão de perspectiva?

Tem mais.

 

Na comemoração dos 100 dias de governo, o general porta-voz da Presidência disse que “o mar está revolto”. Mas o presidente não concorda. “Eu tenho certeza que o céu é de brigadeiro”, declarou.

 

Depende da interpretação, claro. Mas se tem uma coisa que, talvez, todos concordem é que a realidade é muito mais dura do que a gente imagina. Pense numa mulher que depois de ficar três anos planejando ter filhos conseguiu realizar o sonho de vida. Aí, perto do bebê fazer 100 dias, diante de todas as dificuldades, ela se dá conta do quanto é duro e diz que não nasceu pra ser mãe. Feito o presidente que disse que não nasceu para esse cargo. Pode ser, nos dois casos.

 

O mundo está cheio de pais e mães perfeitos e de governantes perfeitos, até se depararem com a vida real. Na idealização, tem quem diga que vai fazer tudo diferente. Não vai aceitar nem permitir isso ou aquilo… Vai revolucionar. Até não conseguir sair do lugar e ver que, a gente pode e precisa querer fazer melhor, mas não adianta querer reinventar a roda. Na maternidade, na paternidade, no governo e na vida.

 

Tem quem ache, por exemplo, que diálogo é perda de tempo. Coisa de pai e mãe ou de governo de esquerda. Só pode! Até descobrir que, sem diálogo, na democracia e em relações baseadas no respeito, não dá. Empaca.

 

Tem gente que acredita que armas são o caminho para resolver a criminalidade. Tapas, palmadas e castigos recorrentes, pra resolver o mal comportamento. Os especialistas renomados é que estão enganados.

 

Mas, se “a mão que embala o berço governa o mundo”, como disse Abraham Lincoln, a gente tem mais poder do que imagina! Que na educação dos filhos a gente comece a fazer a diferença. Que a gente seja capaz de admitir a realidade, que se solidarize com as dificuldades e com a dor do outro, que não nos falte empatia. Que sejamos capazes de ensinar o respeito a todo tipo de diferença, que a gente defenda a igualdade de direitos, dentro e fora de casa, a importância da inclusão, o fim do preconceito e a importância do diálogo. Para que ninguém fique cego nas suas próprias perspectivas. Porque o mar não está pra peixe não. E o céu, há bastante tempo, não é de brigadeiro.

E que nunca nos falte coragem, responsabilidade, nem fé.