Foto: Pixabay

 

Aconteceu de novo. Mais uma vez. Tem sido assim: quero escrever, mas não consigo deixar fluir. Já tem um tempo que escrever deixou de ser um exercício fácil e prazeroso pra se tornar quase um desafio. Na verdade, sinto a falta de ver os pensamentos fluírem no papel, como antes fluíam. Eu conheço as razões desse bloqueio. O problema é que conhecê-las não tem me impedido de continuar limitada.

 

Já já explico os motivos. Aliás, fui interrompida agora de continuar a por as ideias no papel por algo que tem me feito pensar com bastante frequência, ainda mais na pandemia, que não preciso de mais trabalho. Preciso e quero conseguir dedicar mais tempo pra conhecer a palavra de Deus, que só me fortalece; de mais tempo para curtir a vida com meus filhos; de tempo para não fazer nada, pra ficar em casa sem precisar usar máscara, pra maratonar séries, pra jogar conversa fora, pra me preocupar menos… Esses tempos difíceis trazem essas reflexões.

 

De repente, milhares de vidas estão sendo perdidas e muitas dessas pessoas que se foram precocemente – pais, mães, avós, tios, irmãos, amigos – talvez nem tenham tido o tempo que gostariam pra aproveitar a vida, pra ter mais tempo pra fazer o que amavam e menos compromissos e preocupações.

 

Gabi, minha filha de 8 anos, me parou agora pra dizer: “Mãe, quero ver um filme com você!”. Mais cedo, tentava escrever, pelejando contra o bloqueio criativo, e ela me disse: “Mãe, por que você não entra na piscina comigo?”. Pensei: “Quer saber, vou deixar tudo pra lá e curtir a vida com essa menina que Deus me deu!”. Fiz bem.

Agora, estou aqui no exercício que um dia já me deu bem mais prazer. Antes do bloqueio criativo, escrever era um esforço sim, mas uma fonte de prazer, sobretudo. Até que as ideias pararam de fluir. Também, puderas.

Foi um pouco pela auto censura, eu sei. Outro tanto pelas escolhas que fiz. Mais uma parcela importante foi motivada pela constatação de que as pessoas, de uma forma geral, não querem ler, nem pensar. Escrever pra quê, então? A resposta poderia ser: por diversão. Pra entreter.

 

Mas, num tempo em que 303 mil vidas já foram perdidas só no Brasil, como escrever sobre coisas leves?

Toda vez que penso, vem mais um bloqueio, que me desautoriza. Já falei sobre isso até em análise, lamentando a limitação e, sobretudo, a interrupção de uma trajetória de escrita. Afinal, a escrita é também um plantio. E quem planta espera a colheita. Falei, falei, falei no divã virtual em busca de uma razão pra transformar essa escrita e resgatar algo de que tanto sinto falta: a fluidez pra escrever. Saí da sessão otimista, acreditando que tivesse encontrado o caminho.

Pra minha decepção, veio mais um bloqueio criativo. Na semana seguinte, fluiu. Achei, então, que fosse firmar. Só que estava enganada. Novas notícias tristes, novas entrevistas tocantes no trabalho profissional como repórter, e o bloqueio criativo pra escrever fora do trabalho voltou.

Aí, no domingo passado, ao ler Antônio Prata, pensei, acreditando que seria definitivo: “Agora sim, lendo a crônica dele, encontrei o “aval” que precisava pra me permitir falar sobre salames e pianos!” Ou seja, pra falar sobre amenidades, sobre coisas que nos façam rir e respirar em meio à falta de ar.

 

Tentei, mas não foi hoje.  Também, logo cedo, enquanto buscava inspiração, brotou uma mensagem avisando que o pai da Bruna, colega de trabalho querida, faleceu. De COVID. Paralisei. “Nunca pensei que um vírus ia te tirar da gente!”, ela escreveu. É de partir o coração! Quem não sentiu essa dor ou não se solidariza profundamente com a dor de milhares, talvez, nunca entenda o que nos impede de fluir. Certamente, o bloqueio não é só meu.

 

Em meio à tempestade, só encontro um caminho: falar, se autorizar a sentir e firmar a fé sobrenatural em Deus. Ele é escudo, fortaleza, arrimo da nossa sorte. Sem Ele, mesmo com análise, não sei como estaria conseguindo atravessar. Respiro sem culpa por não ter tido outro assunto e por estar diante de mais um bloqueio criativo que me faz terminar apenas agora, já de noite. E já vou correr pra ver um filme, junto com a Gabi. Valorizando as pequenas grandes coisas da vida. Tem coisa melhor?

 

*Vem pro @prisemreceita, no Instagram. Vem, gente!