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Teclados com farelo de pão, resto de polvilho ou polvilhados de glitter. Temos. Tivemos e, sabe-se lá por quanto tempo, ainda teremos. É que as escolas vão reabrir, mas o esquema será híbrido por tempo indeterminado. Se os nossos computadores portáteis serão os mesmos em desempenho pelo tempo que eles seriam antes das aulas online, só o futuro dirá.

 

A gente ensina que não pode comer perto, mas não tem condições de passar o dia de olho para ver se os filhos estão cumprindo o combinado. Aí, a criança esquece do cuidado e começa a comer ou a fazer arte em cima do teclado. Ferrou, há meses!

Estamos prestes a completar sete meses desde o dia em que as aulas invadiram o espaço doméstico. Quem poderia imaginar?

 

Diante disso, apesar de ensinar, estou botando eventuais estragos e danos na conta das perdas da pandemia. Do mesmo jeito que o sofá – palco de cambalhotas entre outras travessuras – já entrou há tempos. Não é fácil aceitar, mas eu também sei que isso é pouco num cenário de guerra biológica que estamos vivendo, com perdas tão gigantescas e irrecuperáveis.

 

Aliás, se você visse o planejamento do retorno escolar da escola dos meus filhos, ia concordar que parece tática de guerra. Até portão extra abriram. Tudo preparado minuciosamente, com orientação de uma equipe de especialistas da Fiocruz. A coisa é séria! Funcionários estarão com máscara e escudos faciais, a circulação em pátios será reduzida, carteiras estarão separadas, mochilas não poderão ter rodinhas, crianças de máscaras vão tirar o sapato para entrar em sala, lanches devem ir em sacolas com zip lock, não pode comer o bolinho do amigo, não pode abraçar, não pode, não pode…

 

Vai ser difícil gostar da escola de novo, mas as crianças são flexíveis e, obviamente, vão acabar se adaptando. Já houve guerras piores, não se esqueça. É há muitas coisas terríveis acontecendo ao nosso redor. Mas o trabalho na escola particular é para tentar cobrir os furos que sabemos que vão existir, na pandemia. Impossível frear um vírus completamente sem vacina e com mais gente circulando.

 

“Vai ter socialização, mas sem o toque!”, ouvimos da coordenadora na reunião online para apresentar o retorno. Pense no desafio para escola e crianças. Se os farelos e o glitter escapam aqui em casa, imagine o que pode acontecer no ambiente escolar. “Vai ser tudo feito de forma processual. Não vai ser um ‘não mexe!’, pra não traumatizar a criança”, ela completou.

Olha, confesso que não sei se mandaríamos se não tivéssemos tido COVID-19 e se não estivéssemos trabalhando fora. “Não vai ser fácil, mas vamos conduzir da melhor maneira possível”, concluiu a coordenadora. Ouvir isso me faz pensar, mais uma vez, em como vamos contar essas histórias no futuro.

 

Mas, aí, eu fico pensando no agora das crianças de escolas públicas que estão sofrendo infinitamente mais do que os nossos filhos. Está difícil pra nós, mas os nossos têm acesso à computador, vivem num ambiente doméstico seguro, com água potável, luz elétrica, alimentação garantida, Netflix, brincam ao ar livre e um tanto de coisas mais. Estão exaustos, mas estão seguros, têm do melhor e não sofrem violências.

 

Outro dia entrei na polêmica e defendi o retorno das aulas pensando, principalmente, no prejuízo psicológico e no bem estar de crianças que têm sido vítimas como maior frequência, inclusive, de violência sexual, já que estão mais tempo com abusadores dentro de casa. É seríssimo e os prejuízos serão gigantes pra toda uma geração, apontam análises que já traçam um cenário devastador de evasão escolar, entre outros males.

 

Depois de tanto tempo, é preciso voltar. Só que para ser bem feito, reduzindo os riscos biológicos, tem de ser tática de guerra. Bem diferente do que a gente sabe que o ensino público é capaz de fazer no país. Portanto, a não ser que a família da criança ou do trabalhador da escola já esteja circulando por aí e aglomerando como se o novo coronavírus tivesse ido embora, vai dar problema. E vai morrer mais gente. O que, obviamente, vai reforçar ainda mais a desigualdade.

 

Olhando de fora, sem conhecimento científico nem estatístico, a gente torce pra que o retorno nas públicas, quando acontecer, não seja tão impactante porque, pelo menos aqui no Rio, a maior parte das pessoas vive há tempos como se já estivéssemos no pós-pandemia. Só que não vai ter Carnaval. Ou seja…

 

*Vem pro @prisemreceita, no Instagram. Vem, gente! Rir pra não chorar é lema.