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Cada cabeça uma sentença. Acabo de pensar nesta frase, neste exato momento em que me desafio a escrever sobre três coisas que não têm nada a ver entre si. Mas têm. São elas: a felicidade projetada nas redes sociais no Dia dos Namorados, a polêmica envolvendo o jogador Neymar e a modelo Najila Trindade e as revelações divulgadas pelo site The Intercept Brasil, com as mensagens trocadas entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. Todas envolvidas por verdades e mentiras. E por diferentes versões que se acredita serem verdadeiras.

 

Se a gente partir do princípio de que contra fatos não se discute, a verdade é uma só. Mas a gente sabe que muita gente se vale de crenças ou de ficções para contar as histórias mais oportunas ou mais belas e fazem parecer que é verdade. Ou, mais que isso: às vezes, as pessoas constroem verdades na própria cabeça que serão ditas com convicção para tentar se convencer e para convencer o outro. Acontece também na infância.

 

Quem nunca viu uma criança defender um ponto de vista com afinco, pra dizer que não teve culpa – ou responsabilidade – numa determinada situação em que alguém foi prejudicado ou se deu mal? Só uma intermediação pode apontar as reais responsabilidades, até pra ensiná-los. Mas, se um lado for mais “encrencado”, pode ser que já saia perdendo.

 

Pois bem, vamos considerar que as interpretações para um mesmo fato podem ser tão diferentes que pode ser que cada lado acredite piamente que está diante da verdade. A pessoa acredita tanto na própria versão que, pra ela, não é mentira, nem ilusão. É verdade. Ou, às vezes, ela já está tão condicionada a uma moral, que pode ser fruto de uma reputação que ela mesma construiu, que precisa manter a todo custo a versão que tem. É quase que uma condição para “sobrevivência”.

 

Isso acontece muito nas redes sociais. No Dia dos Namorados, por exemplo, quantos milhares talvez não estivessem passando por momentos de dificuldades, mas na rede o que postam é um ideal da perfeição?! É duro admitir a imperfeição, as próprias falhas, as faltas da vida. Tem quem poste sabendo que aquela história não é real naquele momento, porque não consegue admitir a dura realidade. Cria-se, então, um ideal. Depois, vira obrigação manter essa idealização, que parece verdade. Por outro lado, muita gente que vê acredita que a vida dos outros é perfeita e a própria, uma lástima. Para essas pessoas, o ideal de perfeição parece realidade.

 

Eu não sou especialista, mas faço análise há tantos anos, já me investiguei e me transformei em tantos aspectos e leio tanto sobre essas coisas que o aprendizado sobre os nossos dilemas humanos tem me feito carregar esse olhar até para o que leio nos jornais.

 

Foi o que aconteceu quando li a entrevista exclusiva ao Estadão do ministro da Justiça, sobre o vazamento das conversas dele com o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol. A Constituição proíbe que juízes mantenham relações que possam colaborar com um dos lados – acusação ou defesa. Mas Moro disse não ver ilicitude nos diálogos, que apontam para uma possível imparcialidade do ex-juiz. Segundo ele, “a tradição jurídica brasileira permite essas conversas entre juízes e advogados e procuradores, inclusive policiais.” Essa é a verdade pra ele. Pra milhares de outros, juristas inclusive, a revelação das conversas que apontam até combinados entre as duas autoridades é uma verdade arrasadora.

 

“A verdade aparece cedo ou tarde”, disse Neymar, depois de prestar depoimento no caso em que é acusado de estupro. O jogador sempre negou a violência e diz que a relação com a modelo brasileira, em Paris, foi consensual. À polícia, ele diz que usou camisinha, jogada no vaso, e que a mulher teria pedido para receber tapas na bunda. Pode ser verdade. Mas é diferente do que diz a moça. Najila afirma que pediu para o jogador usar camisinha, mas ele não quis e ainda foi violento. Pode ser verdade.

 

Parece difícil descobrir ao certo o que aconteceu entre eles na hora H. A polícia e a Justiça vão referendar uma das versões, que será tida como fato. Mesmo que um dos lados continue defendendo a própria versão.

 

Há verdades em que a gente acredita piamente, por causa dos indícios ou porque enxerga as coisas de determinada forma. Tem gente que até duvida de fato histórico e de comprovações científicas. Diz que verdade é mentira. E que mentira é verdade. Por outro lado, há versões que a gente sabe que é preciso manter como se fossem verdades absolutas. Seja para preservar aparências ou para manter reputações, construídas com muito trabalho. Ou, simplesmente, porque é a verdade que se tem por convicção. Quando se trata de gente e das relações, de fato, algumas verdades podem não ser iguais pra todo mundo.

 

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