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Os desafios da maternidade ou da parentalidade, como tem sido definida a educação, são incontáveis. Quem tem filhos do século XXI entende bem.

 

Para enfrentar esses desafios, milhares de mães estão buscando um caminho mais consciente, acertivo e também mais tranquilo. Uma prova disso foi a quinta edição do Seminário Internacional de Mães, em SP, no começo de maio. Mais de mil pessoas de 16 estados do país se reuniram para ouvir médicos e educadores. Alguns apresentaram conceitos e ferramentas sobre inteligência emocional e psicologia positiva aplicadas à educação.

 

E por que não está fácil? Daniel Becker, pediatra que abriu o encontro, explica que até o século passado tínhamos instituições muito fortes. No entanto, perdemos as grandes referências. Hoje, a nossa referência é a mídia que, na verdade, está no nosso bolso. A era digital trouxe benefícios  e também confusão, não dá para negar. Nas redes ou nos grupos de WhatsApp, por exemplo, a cada mensagem de vírus H1N1 ou suspeita de meningite muitos acreditam que há risco iminente de epidemia. Pergunte e comprove que está nesse nível!

 

Como ser mãe em 2019? Um dos primeiros slides da palestra, traduz bem. Assim:

 

“Certifique-se de que todas as necessidades acadêmicas, emocionais, psicológicas, mentais, espirituais, físicas, nutricionais e sociais de seus filhos sejam atendidas, tendo o cuidado de não hiperestimular, subestimular, medicar indevidamente, superproteger ou negligenciar. Tudo isso num ambiente livre de telas, de alimentos ultraprocessados, transgênicos, agrotóxicos e plásticos, livre de energia negativa, promovendo a autoestima mas não o narcisismo, socialmente consciente, com uma educação positiva, respeitosa, empática e não autoritária, estimulante e protetora, mas promovendo a independência… Num lar multilíngue, com quintal arborizado, num bairro sem poluição, com ótimas escolas construtivistas com área verde, brinquedos de madeira reciclada e comida orgânica, livre de açúcar e com 1,5 irmãos espaçados por, pelo menos, dois anos. Sem esquecer o óleo de coco, por favor.”

 

Essa pressão aí, cheia de ironia, fez o auditório se identificar e rir!

 

Felizmente, o medico trouxe mais, inclusive do que tem sido deixado de lado. Além de pediatra, Becker é sanitarista e um dos fundadores da ONG Centro de Promoção da Saúde. Há 25 anos, a ONG atua na periferia de cidades em vários estados. Ele já viajou 23 países falando desse trabalho, que foi replicado em várias comunidades de países da América Latina. Ao longo da apresentação, explicou que o conteúdo que nossos filhos consomem os fertiliza. Se algo externo vai mudar o rumo, já são outros quinhentos. Afinal, ele mesmo alerta que nem tudo está ao nosso alcance. “Boa parte de coisas que acontece nas nossas vidas não depende de nós. Depende da interação com mundo.”, esclarece. Há fatores sociais, ambientais, econômicos e culturais envolvidos.

 

Mas crianças fertilizadas com preconceito e intolerância, por exemplo, terão mais chances de se tornarem adultos preconceituosos. Já as que são criadas com respeito e tolerância poderão crescer preservando valores humanos. “As soluções não são simples. Mas dá pra tornar ciclos viciosos em virtuosos”, ensina o médico. Ele dá exemplos: “Pra defender a natureza, é preciso aprender a amá-la. A criança tem de vivenciar a natureza para protegê-la quando crescer.”

 

Daniel Becker vai além e joga nos nossos colos a responsabilidade da qual muitos se furtam, por negligência ou por falta de compreensão. “Tem de humanizar as cidades. Isso traz justiça. Porque há cobrança pública quando os cidadãos ocupam a cidade. As crianças observam e aprendem com o exemplo de participação e de governança. Não podemos dar cheque em branco para os políticos e virar as costas.”

 

Uma leitora de Monte Sião, em Minas, que me acompanha, contou que mora num bairro onde os moradores cuidam da praça e quando precisam do poder público, correm atrás. “Na maioria das vezes, somos atendidos. Devagar chegamos longe”, comemora a artesã Lorena Corrêa. A praça passou a abrigar uma festa junina e é o espaço de treino de um time de futebol feminino infantil. Agora, os moradores já estão programando outros eventos na praça, que já tornou o bairro conhecido na cidade.

 

O pediatra e sanitarista também fala sobre a sexualidade, assunto tão polêmico hoje em dia. “Temos de desenvolver a nossa capacidade de inclusão. Todo mundo tem direito de exercer a sua diversidade. Sexualidade é diversidade. A pessoa não escolhe ser hétero ou não. É preciso respeitá-las. Sem isso, estamos indo na contramão do respeito mundial.”

 

Quer saber mais do que é super importante para essa parentalidade consciente do século XXI?

 

“Temos de reduzir o machismo na nossa sociedade. E é tarefa de pais e mães de meninos. Educar meninos da mesma forma que se educa meninas, com direitos e responsabilidades iguais. Assim, no futuro, teremos pais que participam igualmente, que compartilham tudo.”

 

Becker termina esclarecendo que a desigualdade, a intolerância e o desrespeito são nocivos para todos nós. E nos lembrando que temos uma arma muito poderosa nas mãos: “Como sociedade, temos de dizer não ao retrocesso. Dizer sim ao respeito, à tolerância e ao respeito à diversidade.”

 

Que a gente possa aproveitar esse dia das Mães para relembrar que a tarefa mais difícil do mundo a gente já faz: criar filhos. E que a gente tenha força e clareza para buscar os melhores caminhos e não se perder nos desafios, familiares e sociais. Somos milhares e estamos juntos, preocupados com isso. Há ainda os especialistas que estavam lá e estão por aí trabalhando para semear a ideia de que toda relação tem de ser fundamentada no respeito, no autocontrole, na responsabilidade e na cooperação. Da família pra sociedade. Essas sim são as melhores armas que a gente pode ter. Sem restrição.

 

*Este é o meu ultimo post aqui no estadao, depois de três anos enriquecedores em que escrevi e ouvi. Convido os que me acompanham e gostam a continuarem comigo nas redes sociais. Em breve, divido com vocês o novo endereço do blog Mãe Sem Receita.

Um pouco de humor faz bem.