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Que cada um vê o mundo com os próprios olhos não se discute. Você já se deu conta de que, até por isso, um mesmo fato é visto de diferentes formas? Um exemplo é a flexibilização da posse de armas, promessa de campanha. Digamos que a decisão não deveria causar surpresa porque, como dizem, promessa é dívida. O que surpreende é a forma como a gente lida com essa mesma decisão. Alguns com paixão, outros com ponderação.

 

Todo mundo entende que falta de segurança é igual a medo? Então, concordamos. Nós somos um povo amedrontado.

 

Há quem diga que, com a facilitação da compra de armas, “felizmente chegou o momento de acabar com as reações impulsivas dos últimos anos, a cobertura ao MST, FARC, comunismo, terroristas, metralhadoras para mais bandidos…”. (entre aspas, porque eu li um comentário exatamente assim, depois do decreto). Só pra constar: algumas coisas aí não tem relação com o Brasil.

 

Alguns, além do medo, têm ódio. O que fica ainda mais perigoso (pra todos nós). Afinal, quem tem ódio pode perder a cabeça facilmente e fazer coisas horríveis. Daquelas que, depois, até se arrepende. Tipo: matar cachorro em supermercado. Nem precisa de arma.

 

Por outro lado, nessa nossa divisão de pontos de vista, medos e frustrações, tem muita gente que enxerga nas armas um perigo maior. Especialistas com diferentes formações que atuam na redução da criminalidade, em segurança pública e na cultura da paz alertam que incentivar mais civis – gente como a gente – a se armar não vai melhorar a segurança como o país precisa.

 

E ter armas dentro de casa onde há crianças? Onde há jovens e pessoas inseguras, que sentem angústia e que podem se descontrolar? Milhares estão deprimidos. A depressão foi eleita pela Organização Mundial da Saúde a doença mais incapacitante do século 21.  “A vida se tornou um peso, uma carga que as pessoas não estão conseguindo carregar. A existência vem perdendo sentido”, esclarece a filósofa Viviane Mosé numa entrevista que acabo de ler na revista de bordo do voo que me trouxe de SP para BH.

 

“Armamento é assunto sério, de vida ou morte, e precisa ser discutido com responsabilidade e sem ideologia”, escreveu esta semana Ilona Szavó, empreendedora cívica, mestre em estudos internacionais pela Universidade de Uppsala, na Suécia, co-fundadora e diretora-executiva do Instituto Igarapé.

 

Quem somos nós, cidadãos com medo, leigos no assunto, pra dizer que os especialistas estão errados? Como podemos desqualificar as análises de tanta gente que passou a vida estudando sobre segurança pública, no mundo todo? Informação tem valor. Ou, pelo menos, deveria.

 

O fato é: agora, ficou mais fácil comprar armas. Pra quem realmente precisa e pra quem quer ter só por prazer. Para o bem e para o mal. Muitos acham que vão ficar mais seguros. Outros, que vão ficar mais poderosos. E tem quem já esteja com mais medo.

 

Não consigo tirar os olhos das avaliações de que desmantelar o que já teve efeito positivo para reduzir as mortes violentas não é o caminho para gente ficar seguro. O primeiro passo, segundo os especialistas, será avançar no controle das armas que já estão disponíveis por aí. Milhares… Nunca conseguimos. Agora, vai ficar mais difícil.

 

Arma em casa? Não, obrigada. Vai que meus filhos encontram e decidem brincar escondido. Vai que alguém rouba ou que numa necessidade de auto defesa, a gente se enrole e dê tudo errado… Não queremos nem de graça!

 

* Hoje não tem vídeo. Mas tem muita coisa todo dia lá no Instagram @maesemreceita. Vem, gente!