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Chego em casa do trabalho e as crianças voltam da escola. Estamos todos cansados. Mas eles ainda têm muita disposição. Nós, adultos, nem sempre. Como fazer para que o tempo com os filhos na rotina seja significativo, então?

 

“Mãe, vamos brincar! Não precisa ser com o corpo. Você pode ficar quietinha!”, Gabi, de 6 anos, me convoca assim, dia desses, ao me ver desmontada na cama. Achei interessantíssima a forma como ela elaborou. Compreendi que já entende o meu cansaço, mas ainda assim, pede a minha disposição. Ao mesmo tempo que isso me exige, é valioso.

 

Não sei se antigamente pai e mãe brincavam com os filhos. Eu não me lembro de brincar com meus pais em casa, mesmo tendo vivido uma infância feliz. Você se lembra? De brincadeira, lembro das que fazíamos no prédio, entre vizinhos. Mas hoje, como mãe, sinto necessidade de brincar com meus filhos. Nem sempre há desejo, confesso. Às vezes, é só um sentimento de necessidade. Fruto da compreensão do quanto isso é importante e abre espaço para tantas outras coisas na nossa relação. Por isso, tenho me dedicado a esses momentos para brincarmos juntos. E tenho dado valor pra isso. Faz bem para eles e tem feito bem pra mim.

 

Ontem foi um dia que eu tinha tempo e desejo de sobra. “Hoje, nós vamos brincar juntos! Estou com saudade de ficar só com você!”, declaro para o mais velho, de 10, que passou três dias fora, numa excursão da escola, enquanto a caçula foi brincar na casa de uma amiguinha.

 

“Vamos brincar do quê?”, Rafael pergunta, já no caminho de volta do colégio. “Pode ser de adivinha, de forca, de jogo da velha, de caça-palavras… Ou de qualquer coisa que você quiser!”. Pensando bem, só sugeri brincadeiras paradas. E ele é um menino corporal. Primeiro, passamos um tempo conversando, deitados juntinhos na rede do quintal. Daqui a pouco, ele aparece com uma bola. Dessas de plástico, levinhas, gostosas de jogar. Botei MPB pra tocar e ficamos lá, dando risada e rebatendo a bola de um lado para o outro, na maior alegria, tentando não deixar picar no chão. A leveza da bola era a leveza da minha alma. Enquanto jogávamos, pensei: “Por que não faço mais isso?”.

 

Eu sei o porquê. A vida corrida, horas a fio trabalhando, a lista de obrigações, os desafios, a falta de tempo, o cansaço e todo o resto que educar exige, de fato, limitam as oportunidades e a nossa energia para estarmos disponíveis para os filhos. Ser mãe e pai no século 21 é um se-vira-nos-30. Mas, ontem, enquanto pensava no prazer de poder ficar umas duas horas e meia brincando, corujando e conversando só com ele, lembrei de como eu, há cerca de um ano, encontrei uma saída criativa, que tem me ajudado muito a reservar um tempinho só para eles. Foi depois de ouvir num encontro uma mãe contar o que fazia com a filha Glória. Aqui em casa, não acontece todo dia, é verdade. Mas já ficou marcado.

 

“Mãe, agora é a hora da Gabi!” ou “Vamos fazer a hora do Fefel?!”, é o que eles costumam dizer, quando não sou eu a que proponho um momento para brincarmos. Nessa hora, o tempo para. Celular, chateações do trabalho, mensagens nas redes sociais, conflito ou ciúme entre irmãos… Nada. Nada atrapalha. Na hora deles – que pode ser 20, 30 minutos ou um pouco mais de tempo, quando dá –  a minha energia, disposição e o meu afeto é todo deles. É a nossa hora da glória. Que não termina, nem quando acaba.

 

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