foto: Nilson Fukuda/Estadão

 

Véspera da paralisação nacional convocada pelos sindicatos de professores, a escola particular onde meus filhos estudam informa sobre a decisão dos professores de parar. Imediatamente, nos dois grupos de mães dos quais participo, vejo emojis tapando a cabeça e um “de novo?”, seguido por mais carinha de sofrimento. Quem era a favor preferiu não se manifestar ali.

 

Num outro grupo da mesma escola, uma mãe amiga diz que leu: “Manifestação? Qual o motivo? Em defesa da educação? Mas pra quê?”. Alunos do ensino médio da escola, que está entre as mais bem conceituadas de São Paulo, assinaram uma nota pública que terminava dizendo, depois de apresentar diversas questões e dados: “Como estudantes, ficamos extremamente preocupados com os ataques à educação, que tanto põem em risco nosso futuro quanto o futuro do país. Frente às graves ameaças que se colocam, declaramos nosso total apoio à paralisação do dia 15 de maio e aos atos em defesa da educação, que ocorrerão em todo país, pois só conseguiremos lutar por nossos direitos se estivermos unidos.”

 

Primeira coisa: quem é adulto e vive no Brasil há pelo menos dois anos já entendeu o impacto da crise financeira, que pode voltar a ser recessão. Quantos não tiveram de trocar os filhos de escola? Quantos não estão inadimplentes? Quantos não precisaram negociar descontos? Se não tem dinheiro, então, o corte de gastos é inevitável. Dentro de casa e na esfera pública. Mas desde quando alguém começa cortando o mais importante, sem análise ou estudo e ainda por cima se valendo de um discurso de perseguição? Parece castigo!

 

Por isso, o povo foi às ruas. Os cortes de verbas, a interrupção de pesquisas e perseguição a professores é uma realidade atual da educação brasileira, que não é alvo de cortes apenas porque o país está quebrado. A certeza quem deu foi o próprio ministro da Educação, quando decidiu anunciar que “as universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”.

 

Muita gente que tem filhos em escolas particulares talvez não se preocupe porque só esteja pensando que é um absurdo pagar e não ter a aula, mesmo que ela seja reposta depois. Mas o fato é que é das universidades federais que vêm boa parte dos profissionais que hoje ensinam os nossos filhos, nas melhores escolas do país. E são essas instituições também que formam os futuros professores.

 

Mesmo com famílias contrárias à paralisação em escolas particulares de todos o pais, milhares de pais – professores ou não – se juntaram aos filhos. Tem mais: entre os manifestantes tinha quem votou no governo.

 

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”, já dizia Paulo Freire, pedagogo, filósofo e professor reconhecido e premiado internacionalmente pelo que fez pela educação brasileira.

 

O povo de volta pacificamente às ruas exigindo responsabilidade prova que a educação voltou a nos unir.

 

Tive uma prova disso também no dia seguinte, depois das declarações do presidente que chamou os manifestantes de “idiotas úteis”. Ouvi de um empresário, dono de um grupo que tem empresas na área da advocacia, de consultoria imobiliária e até de inteligência ambiental, numa reunião sobre estratégia de mídia: “Sou de extrema direita, mas pelo amor de Deus, como é que o Bolsonaro foi arranjar confusão com a elite intelectual? Alguém tem de fazer ele parar! Eu estou assustado. Estamos perdidos!”

 

Quando eleitores, empresários, integrantes do governo e até o Congresso começam a pensar assim é porque, de fato, tem algo diferente acontecendo.

 

Quanto à paralisação das escolas, é inegável que é difícil ter os filhos dentro de casa, quando se está na rotina de trabalho, mas é esse tipo de escola que a gente deveria querer para os filhos. Instituições que formam cidadãos críticos. Gente que vai poder escolher ser engenheiro, médico, cientista, economista, filósofo, sociólogo, antropólogo… o que quiser. Que vai votar em quem quiser. Mas serão profissionais com senso crítico, que vão se responsabilizar e se preocupar com a sociedade da qual fazem parte. Vale cada centavo investido!