A Azaleia prefere a calma. Ôpa, muito gostoso crescer no meio do verde, com outras plantas ao lado, passarinhos fazendo piu-piu, abelhinhas fazendo bz-bz e o vento fúúú. Quase vejo a Noviça Rebelde correndo pelo gramado. Mas, infelizmente, a Azaleia floresce muito mais bonita sob estresse. Em um ambiente hostil, sai produzindo flor atrás de flor. É como se percebesse que a casa vai cair e então corre pra adiantar o serviço.

 

Isso acontece sempre ali na 23 de maio, uma das avenidas mais desesperadas de São Paulo. As Azaleias estão sempre floridas, nos canteiros entre as vias. A cada busão que passa, a cada espelhinho arregaçado por um motoboy, a cada dedo do meio em riste, ela responde com uma flor.  Ó que lindo !

 

Conto tudo isso por causa de Jujú Empate-Fora-De-Casa. Moça bonita, mas não chega a parar o trânsito.  Quando a conheci, Jujú era nota sete em matemática. Ou seja: pô, tá mais do que bom; é como empatar com a Alemanha jogando em Berlim. Anos depois, reencontrei a moça. Mal reconheci. Tinha desabrochado: estava mais linda que Paris na primavera. Conversando, entendi a metamorfose – ela tinha passado por perrengues. E tinha sobrevivido. Como as Azaleias da 23, Jujú Empate-Fora tinha ficado mais bonita por causa do estresse. Nota nove e meio em poesia.

 

Mas, como assim ? Estresse engorda, dá espinha, a unha vai pra cucuia, o cabelo cai (o meu, não: é culpa de Deus). Como pode ficar mais bonita ? Explico: segurança. Quem dá a volta por cima tem uma aura de vida que faz a pessoa diferente mesmo. O chão (daí não passa) tem colágeno. Fica primeiro esfolado, dói, mas depois cura. Nasce outra pele no lugar, mais nova, mais elástica – mais bonita.

 

Quem passou por dificuldade tem leveza. Valoriza o bom, relativiza o ruim. Não leva pro travesseiro qualquer coisa – mas quando leva, vixemaria, não deixa barato. Mulheres-Azaleia não perdem o rebolado; são donas de si, de mim, de ti e de todo lugar. Debaixo do lençol, esperando ansiosamente você sair do banheiro, são feito jacaré esperando a presa: ficam só os zóiinho de fora, espreitando. Elas dominam. São muita areia pro caminhãozinho.

 

Dão certo medo também, pelo excesso de segurança – mas são excelentes companheiras. O homem em geral (eu em particular) não consegue ver o buraco da rosquinha sem orientação feminina. Sem uma parceira de valor ao lado, nosso rumo é um desvario. E tem outra coisa que dê mais valor do que a capacidade de enfrentar problemas ?

 

Mulheres-Azaleia têm paciência com os nossos choramingos – mas mandam engolir o choro. É aquilo que os americanos chamam de “guidance” e os brazucas de “prestenção”. Acorda, rapá. É bom ter alguém por perto que já tenha passado pelo caminho das pedras e ajude na trilha. Não tenho problema nenhum com isso, agarro na mão dela e vou no caminho indicado. Gosto de ser pau-mandado.

 

Infelizmente, Mulheres-Azaleia não vêm às dúzias. Não estão nas bancas da Doutor Arnaldo. São flores raras – porque não é todo mundo que consegue sair do poço e enfrentar a lida. Quando aparecer um exemplar, um botão na sua frente, segure bem e não solte. Ah, como você vai identificar uma Mulher-Azaleia ? Fácil: elas olham você meticulosamente de cima-baixo, seguras, como se fossem a Primeira Ministra da Alemanha – e isso dá uma coisa nos nossos hormônios mais safados que nem a biologia consegue explicar. Se formigar, saiba: é ela.