Estava eu no momento pós-palestra, em uma faculdade. Conversava com algumas alunas sobre a Olimpíada do Rio, mais precisamente a respeito daquele francês lá do salto com vara. Não sei se lembram, mas o Tiago Bráz, brasileiro, faturou o ouro – e o Renaud Lavillenie, mega-favorito, ficou com a prata. No chororô da derrota, Lavillenie saiu pondo a culpa no público – que vaiou, atrapalhando sua concentração. Ô coitado. Vaia em olimpíada é feio, verdade – mas meu ponto era outro: eu achava um absurdo o francês não ter simplesmente assumido que pulou mal. Assume o erro e fim de papo, ué. Estava indo bem nessa tese quando escorreguei no discurso e falei que “o francês devia ter sido macho e assumido”. Meu amigo, minha amiga, voou cadeira pra tudo quanto é lado. As alunas caíram matando: “como assim?! Então só macho pode ter uma posição de coragem?” Na hora, me virei, fiz o que dava. Gaguejei, inventei desculpas e me tranquei ao banheiro. Saí inteiro. Era só um jeito de falar, gente!

 

Outra: fiz um filme de propaganda onde o ator chegava para a atriz e dizia que “ela era a coisa mais bonita da festa”. Ih, pronto. Acharam que era objetificação da mulher. Segundo algumas consumidoras, mulher não é “coisa” para ser admirada. Argumentei que Vinícius de Morais tinha feito o mesmo, no “coisa mais linda mais cheia de graça” – e todo mundo cantarolava à vontê. Não adiantou como jurisprudência. Tivemos que trocar a palavra.

 

Com relação à igualdade dos sexos, não há espaço para negociação. As moças estão iguais aos radares de velocidade de São Paulo: não perdoam uma. Aí o ogro acusa de feminazi, de exagerada, de xiita. Que elas ficam procurando pelo em careca. Que assim fica chato, intransigente, hostil. Concordo totalmente. Mas então pergunto: e se não fosse assim? Se as mulheres fossem mais permissivas, mais gentis, mais flexíveis? E se não tivessem partido pra briga?

 

Pois eu digo: ainda estaríamos no Mad Men. E elas não teriam mudado o mundo – mais até do que os nerds do Vale do Silício. Pense no livro Cinquenta Tons de Cinza. Se fosse lançado hoje, provavelmente não teria feito tanto barulho. Aquela mulher lá era muito obediente, tenha paciência. Fazia o que o namorado dela mandava. Bocó total. A Nova Mulher não é assim. Vou dar outro exemplo: o filme E Aí, Comeu?. Lançado em 2012, tinha metade da história acontecendo num bar, onde três amigos enchiam a cara e falavam de mulher. Era plenamente justificável que eles falassem atrocidades, porque estavam de fogo, entre amigos, num bar. O filme fez três milhões de espectadores, ganhamos prêmios com ele – mas, atualmente, seria um quase fracasso. Ia juntar gente na porta do cinema – mas pra dar porrada no diretor.

 

As coisas atropelam. Quando viu, já foi. É uma energia que vem de baixo pra cima, do povo, da maioria, do comportamento constante e consistente. Incomoda tanto que não há outra perspectiva a não ser mudar. É como as revoluções acontecem. Pode olhar. Fuce em todas. Se vem de cima para baixo, é golpe. Se vem debaixo para cima, é revolução.