Helena, 6 anos, encasquetou que queria tocar cello. Podia ser violão, flauta doce, percussão com coquinho, mas não: Helena queria o cello. Sua mãe comprou um instrumento infantil, pagou em vezes e matriculou a linda musicista nas aulas do conservatório. A professora era joia, tinha balinha, tinha brincadeira, uma delícia. Meses depois, a mãe quis saber: está gostando de tocar cello? A filha respondeu: eu detesto tocar cello. A mãe: ué, mas você adora ir na aula! A filha: eu gosto da aula, mas não de tocar cello. Ou seja: Helena gostava do agito, do bafom – mas não do instrumento. Gostava do ambiente, não do trabalho.

 

Comigo, aconteceu o contrário: em 2009 resolvi ficar escrevendo só para o cinema. Saí da agência de propaganda onde trabalhava, e passei o ano inteiro em casa, gramando feito faxineiro de motel. Escrevi tanto que os meus dedos ficaram iguais aos do Nosferatu. Desse período, saíram três longas. Então, apesar de ser em casa, com todas as distrações do lar e da Copa da UEFA, mandei bem. Mas faltava o convívio da agência. Escrever é um lance muito solitário; eu passava os dias sem ver uma mísera bunda. Meu time perdia e ninguém vinha tirar sarro. Qual a vantagem do trabalho ir bem, se o ambiente é sem graça?

 

Em resumo, eu e a Helena padecíamos do mesmo mal: o desencontro entre a felicidade de estar num lugar saudável e instigante – e a satisfação em trabalhar com o que se gosta. Ela adorava o lugar, não gostava do violino. Eu gosto de escrever, mas preferia realizar esse trabalho em um lugar com mais bundas. Daí descobri que tinha mais gente nessa mesma situação, gente infeliz e feliz ao mesmo tempo. Uma situação que atrasa a vida profissional, porque normalmente as pessoas acabam preferindo ficar em um lugar mais agradável em prejuízo do trabalho realizado. E, nessa, vão ficando anos no mesmo lugar, empacados.

 

Bom, como todo mundo sabe, o trânsito de São Paulo nos obriga a também ficar empacados. Você pega o carro pra comprar pão, pega um congestionamento de doze anos-luz pra ficar pensando na vida, e pronto: desenvolve a teoria das Supercordas. Nisso, em um dia que chovia e engarrafava, pensei que a vocação pode ser a resposta para este dilema. Explico: se a pessoa realmente trabalha em uma atividade para a qual nasceu, aí basta achar um local agradável e ser feliz. É uma variável a menos para tirar nosso sono, já que o trabalho sempre dará prazer. Nisso, o sinal abriu, buzinaram atrás de mim e não achei solução pra parte mais intrigante do assunto todo: como faz para achar essa vocação? Vende em farmácia? Tem na internet?

 

Porque na maioria das vezes a gente descobre pra que prestamos quando é tarde demais. Quantas pessoas entram na faculdade de medicina, orgulho da família – e quando vão dissecar o primeiro crânio caem desmaiadas, só levantando para trocar a matrícula para artes dramáticas?

 

No fundo, a busca da vocação é conhecer a si mesmo. Saber o material do qual você é feito – e que vai lhe ajudar a ser feliz em qualquer lugar. Aquela profissão na qual você ficará, alegremente, por anos e anos. Basta procurar aí por dentro de você. Ou, nas palavras de Nietzche, torna-te quem tú és.

 

Nietzche acha que é fácil.