Cinquenta é o novo trinta. Vai vendo o time: Demi Moore, Cindy Crawford, Courteney Cox e Sharon Stone. Sheryl Crow, Sandra Bullock e Madonna. Maitê Proença, Débora Bloch e Luiza Brunet. Todas acima de meio século de vida. Todas posando de biquíni pra mostrar a maravilha que é envelhecer. Claro que é. Desde que você tenha recursos pra se manter linda. Ioga, pilates, quinoa, alface, plásticas. O resultado é espetacular – mas não venha me dizer que é genética boa. Vamos ser honestos. Genética boa é o outro nome para silicone.

 

Acontece que a maioria das pessoas não tem dinheiro pra isso tudo. A maioria tem que sobreviver. Sabe quanto custa um quilo de carne moída ? Então. O bom é o seguinte: há alternativas pra caducar dignamente.

 

Puxo por Marco Túlio Cícero. Roma antiga. Cícero era um senador, falava bem pra burro. Deixou bastante assunto pra posteridade. Como o texto Saber Envelhecer. Tem nas farmácias pra vender, é baratinho. Naquela época, tipo 50 a.C., não existiam grandes cremes para o rosto. Tampouco a medicina resolvia: o máximo disponível era a mumificação, coisa que não ajudava os ainda vivos. Nessa época, até uma lâmpada teria pés-de-galinha. A saída, então, era tentar viver o melhor de cada fase da vida.

 

Para Cícero, envelhecer era encontrar o prazer que todas as idades proporcionam. Todas têm as suas virtudes; ninguém precisaria ter vinte anos de idade, a vida toda, pra ser feliz. Mais ainda: ninguém precisaria ir buscar alegrias nas outras fases da vida, porque a sua já seria uma delícia. E tentar viver uma vida assim deslocada levaria ao erro, à frustração. Algo como casar aos 15 anos de idade, ou se comportar como aquelas criticadas coroas que vão de fio dental à praia. Não orna (segundo Cícero, veja bem. Eu não tenho nada contra.).

 

Ou seja: se você é criança, faça coisas de criança: jogue bola, coma bolo de chocolate e viaje para Disney (evite maquiagem; criança de maquiagem é esquisito). Se você tem dezoito anos, caia na balada, dê muitos beijos e viaje pelo nordeste com cinco reais na carteira (evite engravidar; muito cedo pra isso). Trinta anos ? Trabalhe de monte, ache alguém legal pra – juntos – construírem um jardim e viaje para Boston fazer MBA (evite ressacas; começam a ser piores). Aos cinquenta, compre um carro cheio de botões, se conforme em acordar cedo todo dia e viaje até New York pra jantar no Nobu (evite dívidas; dever depois de coroa é um suplício). Aos setenta, passe o fim de semana com os netos, aprenda tranca e viaje com os cruzeiros Costa (evite jogar bola; os ossos quebram fácil).

 

Eu, pessoalmente, aceito envelhecer. Até porque a alternativa é pior – morrer cedo. Mas discordo um pouco do Cícero. Se vou ter artrite, quero compensar me divertindo. Não ficarei desgovernado antes dos 70 – mas, depois, não me responsabilizo. Meu projeto é um Cícero à Lusitana. Do meu jeito. Nos conformes até os setenta – depois dane-se.

 

Vou ser que nem o Sean Connery ou o Clint Eastwood. Terei rugas – mas em vez de botox, pretendo injetar charme. E, decididamente, vou partir pra cima das outras fases. Ôpa, vou é zoar. Estarei na volta olímpica da vida, ué. Topo trocar a dignidade pela diversão. Vai ser difícil eu ficar bem de sunga, mas espero ter segurança pra não me importar. Se minhas pernas estiverem ainda fortes, vou apertar a campainha do vizinho e sair correndo. Caso me alcancem, ponho a culpa no neto mais próximo. E pronto. Como diz Homer Simpson, outro pensador importante: “a culpa é minha, e eu ponho ela em quem eu quiser”.