Romeu conheceu Julieta em uma lavanderia do 5-à-Sec. Julieta tinha ido lavar uma bandeira do Brasil, Romeu uma camisa amarela. A coincidência cívico-colorida foi o ponto de partida para uma conversa mole que indicava interesse mútuo. Trocaram telefones e mandaram zapzaps.

 

Combinaram de sair. Romeu pegou seu automóvel praticamente importado e foi buscar Julieta em casa. No caminho até o restaurante, xavecaram-se animadamente. Lá, comeram, riram, se divertiram. Ele pagou a conta – coisa que ela gostou (apesar de achar meio burguês). Seguiram para a sobremesa – na casa dela. Já na sala, no meio de uma penumbra sugestiva, se pegaram de beijos e mãos bobas. Romeu, ocupado com a corpulência de Julieta à meia-luz, nem notou direito o Che Guevara em cima da lareira. Achou que era o Gonzaguinha de boina.

 

Romeu foi embora, mas não conseguia parar de pensar na Ju. No dia seguinte, estava de novo buscando a dama, agora para ir ao cinema. Romeu queria ver o Leo Di Caprio, Julieta preferia Lázaro Ramos (sugestão que ele julgou meio proletária). Não viram Leo, nem Lázaro: ficaram mais entretidos entre eles, em beijos cinematográficos. Estavam amando! Que felicidade! Que delícia! Os dois deram certo como se fossem queijo com goiabada.

 

A coisa azedou na volta do cinema, quando tocou Chico Buarque no rádio do carro. Na mesma hora, cheio de asco, ele mudou o som. Pôs Lobão. Pronto, Julieta sacou tudo: Romeu era Coxinha. Algo impensável para uma Petralha como ela. Discutiram. Botaram o dedo na cara, ofenderam-se: você é isso, você é aquilo. Julieta desceu do carro no meio da rua e foi de metrô. Andar de transporte público era algo que ela não fazia (mesmo tendo ido nas manifestações contra aumento de tarifa). Mas ficar no carro com um Coxa!? Jamé! – como se dizia em Paris.

 

Bloquearam-se no feice, juraram nunca mais se ver. Acontece que o estrago estava feito. Era impossível evitar o contato, os beijos, os suores. Ah, caro leitor, o amor é como a Operação Lava Jato: uma hora pega todo mundo, de todas as tendências (é o que se espera). Passaram a se encontrar furtivamente. Os amigos não podiam saber. O Jornal Nacional não podia saber. O Datafolha não podia saber. Só que vazou o áudio de um telefonema apaixonado e… todo mundo ficou sabendo. Julieta, romântica e revolucionária, sugeriu o suicídio. Vamos sujar a mão dos imperialistas com o nosso sangue!”- bradou. Romeu, mais pragmático e não querendo deixar a caranga de herança, ponderou: “Morrer pelos políticos? Tá lóque?”.

 

Combinaram que iam fugir. Pra longe, pra onde o amor deles pudesse correr solto e florescer. Sem Constantino, sem Gregório, sem ninguém enchendo o saco. Fizeram as malas e se mandaram sem olhar para trás. Para Cuba.

 

Hoje, Julieta trabalha na American Airlines de Havana. Romeu abriu um Planet Hollywood em Varadero. Tiveram um filho loirinho de olhos azuis. Um lindinho: nem dois anos, e já é comunista. Chama Steve Jobs.