Os britânicos resolveram trazer para a vida real o “Should I Stay or Should I Go”, do Clash – e debandaram da União Europeia. Nem vou entrar no mérito; eu pessoalmente tenho encrencas domésticas mais encruadas. Foi decisão que causou frenesi. A Libra, uma espécie de Chuck Norris das moedas, perdeu valor; o rating da Inglaterra desabou; a Escócia reclamou independência; Game of Thrones quase pediu falência, nossa mãe: maior barraco. Finalmente a política brasileira encontrou concorrência no quesito dramaticidade. Mas era de se esperar. Bastava os ingleses olharem pra vida amorosa das pessoas para prever como essa questão separatista ia ser complicada.

 

Tudo começa com uma crise, sempre. No caso da Inglaterra, foi o desemprego: as classes mais baixas se ressentiam da concorrência dos imigrantes. Já em um relacionamento amoroso, não tem uma razão única. Pode ser desgaste, traição, falta de química, falta de dinheiro, distância, sogra chata, bafo de alho, olho-de-peixe – ou a soma de todas essas picuinhas. No fim, a dúvida é a mesma: “Should I Stay or Should I Go”?

 

Se a decisão for pelo “leave”, vai acontecer como na Bretanha: vai doer. Separar incentiva maledicências, acaba com as finanças e causa gastrites. Alguns amigos comuns fazem que nem a Escócia e escolhem lado. E são dois trabalhos: desmanchar e recomeçar. Primeiro a pessoa vai pra fisioterapia do amor, fica sem dormir, deprime, sofre litros. Em seguida, cicatrizada, volta a praticar a arte da sedução – habilidade que demora para ressuscitar. Tem muita coisa que mudou de uns anos pra cá. Por exemplo: convidar a moça para jantar – e pagar a conta. Dependendo, não pega bem. Antes, era cavalheirismo, gentileza, educação. Hoje, tem quem ache machismo.

 

Agora, se a pessoa resolve ficar no relacionamento, se abraça o “remain”, o caminho também não vai ser fácil. Tem que ter muita determinação para investir em algo que, naquele momento, está dando errado. É como continuar comprando ações do Eike sabendo que a vaca foi pra Stonehenge. Sem contar a ironia do processo todo, porque permanecer significa mudar. Senão, pra quê? Se a pessoa chegou no ponto de rever o futuro do casal, é porque alguma coisa não estava bacana. “Remain” só vale a pena com coragem. Mas é uma escolha linda, porque se ampara em perspectiva inspiradora: deste limão ainda sai caipirinha. Sou do time da esperança. Gosto da ideia e adoro a palavra. Es-pe-ran-ça. Soa feito o Big Ben marcando quatro horas.

 

De qualquer modo, haverá mudanças. Ficando ou saindo. E mudanças causam perrengues. Aproveito a deixa para sair do Reino Unido e citar a China. São seis mil anos de civilização; os chinas tiveram tempo pra testar maldições. São bons nisso. Uma dessas pragas, reservada para aqueles sacanas muito merecedores: espero que você renasça em um período de mudanças. Uia.

 

Não é mole, não. Decidir pelo casamento ou pela bicicleta é sempre traumático. Como diz a canção do Clash, citada por este cronista lá em cima: se eu me for, vai dar problema. Se eu ficar, vai dar o dobro de problema.