Ser alegre, insisto sempre, é muito melhor. Gargalhar produz hormônios benéficos, deixa a barriga chapada, melhora o astral do ambiente, atrai gente bonita. Morrer de rir é viver saudavelmente. Só é ruim quando você está com guaraná na boca, seu pai está bravo, e seu irmão cutuca por baixo da mesa.

 

O problema de ser feliz é que os outros se incomodam. Chefe mal-comido, cliente chata, amigo ranzinza – tem um povo aí que se irrita ao perceber, através da sua alegria, a própria incapacidade em ser leve. Se ofendem. É aquele sambinha do Nelson Cavaquinho, todo mundo conhece: “tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Em épocas de crise, aliás, não convém aparentar felicidade explícita; passa a impressão de alienação. Não pode ser alegre se o dólar passa de 3,50, não pode rir alto se há risco de passaralho. Os outros ficam com a maior culpa da sua felicidade; é um sofrimento sem fim.

 

Mas o inferno não é só os outros, como comentou Sartre. O problema é você também, a auto-sabotagem. Segundo Brené Brown, da Universidade de Houston, as pessoas inventam medo da felicidade e se afligem com a quantidade e a duração dela – e aí ficam aflitas. Acham que não são merecedoras, que a felicidade vai tirar do foco. Como se a única opção politicamente correta, principalmente em anos de crise, fosse a sobriedade. Além do receio, as pessoas acham que a alegria é sempre menor do que mereciam, que a felicidade do vizinho é mais verdinha. Quem acha tudo insuficiente, no geral, é mais frustrado.

 

Já é bastante ruim, isso de ter medo de sorrir, de achar que vai ser pouco. Já serve para torpedear a alegria de qualquer um. Mas ainda tem a questão da insegurança: o cabra acha que a felicidade pode acabar um dia. Ao invés de se divertir, imagina que aquilo pode ter um final. Mas, e bolo de chocolate: você pensa que vai acabar enquanto está comendo? Alguém tem medo de bolo, fica racionalizando diante de um Floresta Negra, um bolo de Brigadeiro, um Nega Maluca? As pessoas empacam, pensando que não merecem – ou caem matando, antes que seja tarde demais? Então.

 

Aprendi em aniversários de criança, que são felizes sem grandes encanações: quem pensa demais come farelo.