Todo mundo sabe, não é segredo nenhum: a personalidade é um buraco na parede que, conforme você conhece a pessoa, vai enfiando a mão dentro. Tipo Indiana Jones, acho que o segundo, quando a mocinha ia pegar a chave naquela fissura cheia de baratas e nojeiras indescritíveis. Lembram? Então.

 

Pois personalidades são assim: misteriosas e impenetráveis. Muitas vezes com gosmas e peçonhas escondidas. Difícil encontrar alguém transparente. Beleza se reconhece de cara; charme vem em seguida – ficando a personalidade para ser descortinada por último. São as nossas caixas-pretas individuais. Que, como acontece nos aeroplanos, nunca ajudam antes do desastre. É sempre depois, quando já há vítimas. Aí fica fácil: o relacionamento não deu certo por causa do ciúme, porque a família sabotou, porque ela não gostava de flores – enfim: depois da hecatombe, até eu.

 

O ideal é abrir a caixa-preta ainda durante o vôo. Tem várias maneiras, nenhuma de eficiência comprovada pela ciência. Uma delas é acompanhar o cabra jogando futebol. Com a competitividade, com o esforço, com os encontrões, as pessoas ficam menos defendidas – e aí aflora o verdadeiro ser. Sujeitos bonzinhos e episcopais viram a reencarnação de Chico Picadinho. E dão pontapé, e roubam no lance, e dizem que a bola entrou, e dão faniquitos. Atente para os violentos. Cedo ou tarde isso também aparece fora de campo. Sim, mulheres também jogam. Serve também pra elas.

 

Outro jeito é levando o seu par pra beber. O sujeito ou a moça se solta, podendo aí baixar várias entidades diferentes na mesa. Pode vir o Leão – aquele que fica corajoso e quer dar porrada. Pode descer o Macaco, que quer fazer os outros rirem. Pode surgir a Preguiça, que deseja somente enfiar o dedo na garganta e ir dormir. Pode aparecer o Papagaio, personalidade falante e perigosamente sincera. Interrompa o relacionamento se aparecer o Leão, por motivos óbvios. Interrompa o teste se ao invés de um bicho aparecer a coma alcólica. A ideia não é matar a cobaia.

 

Dizem que o jeito que a pessoa escreve também ajuda a desvelar personalidades. O A em forma de triângulo indicaria personalidade agressiva, enquanto o J com a perninha muito torta é coisa de gente possessiva. Quero ver achar alguém que ainda escreva à mão, para fazer a análise. Aguardo um estudo para emoticons. Conhecer a sogra é básico: filhos mimados demais tendem a ser difíceis de lidar. Jogar WAR em grupo mostra a tendência para guardar rancor. Já vi namoros terminarem em bombardeios no Aral ou Dudinka.

 

O importante é tentar radiografar a verdadeira personalidade antes que chegue na última avaliação de todas. O teste de personalidade final, a hora que cai do teto a máscara de oxigênio. A pior, a mais cruel prova: o momento de desmanchar a relação. Se todos os outros testes falharem, a revelação definitiva vai sobrar pra hora do tchau. Porque, de verdade, você não conhece alguém quando lhe apresentam, quando a criatura entra no relacionamento. Você conhece quando esta pessoa sai da sua vida. Fazendo feiúras, deixando destroços e ofensas. Melhor tentar prever o meteorito chegando, seja usando o futebol, o bar ou a grafia, do que encarar os escombros da existência toda extinta.