Querida leitora de primeira viagem:

 

Fiquei sabendo que você acha que está apaixonada pela primeira vez. Não é exclusividade das adolescentes, fique tranquila. Saramago, por exemplo, dizia aos quatro cantos que tinha conhecido o amor depois dos sessenta. Não sou especialista no assunto, mas escuto bastante Artic Monkeys. De modo que podemos tentar descrever como funciona.

 

A leitora é asmática ? Se for, melhor. Quem tem asma, às vezes fica com o peito fechado, assobiando “Morte e Vida Severina”. Parece que o ar não entra o suficiente, o tórax fica espremido. Nessa, aparece um tubinho de Aerolin na sua mão (consulte um médico antes). Você respira o ar do tubinho e a vida se acende, seu pulmão se abre, o ar entra cantando “Alegria, Alegria”. Pronto: o amor é o Aerolin.

 

A leitora não é asmática. Certo. A leitora tem lareira ? Sabe quando a lareira está funcionando a plena fumaça, todas as lenhas queimando por igual, aquele croc-croc simpático ? Então. O copo de vinho na sua mão é o amor. É o que encorpa, o que melhora com o tempo. O que tem sabor. É o que faz a lareira, enquanto metáfora, ter sentido.

 

(Dois  perigos nessa metáfora. A ) Cuidado com o fogo em si. Labareda machuca, como a paixão. B)  Cuidado com essa história do vinho ser o amor. Porque seu companheiro pode ser um cara pobre de marré, daqueles de rachar a gasolina. Nesses casos, o amor é a loja de bebidas inteira, com um gerente querendo trocar de carro. Complicado.)

 

A leitora não tem lareira. Entendo. E piscina, pelo menos já viu uma ? Vamos imaginar Dubai no verão. Pense uma piscina cheia de água azul-caribe, com palmeiras de um lado e jogadores italianos de futebol no outro. Esta piscina tem uma plataforma de saltos de dez metros. Você está lá em cima, e aquele azul-caribe diz “pula, gata”. E o medo ? Dez metros é bastante. Como faz ? Pra você ver, leitora: tudo isso é o amor. Refresca, alivia, é bonito. Mas mergulhar de cabeça dá uma baita paúra, para ficar na língua dos italianos.

 

A leitora não tem piscina, nunca viu uma? A leitora, vamos combinar, não está ajudando. Assim fica difícil. Precisa ter pelo menos um tico de boa vontade para entender o amor. Uma fácil, portanto: a leitora com certeza tem coração. Sabe esse beliscão que dá na aorta quando você imagina seu love na Vila Madalena chacoalhando a bandeira brazuca ? Isso é ciúme. Não é propriamente amor, mas há consenso entre a classe poética que onde tem ciúme, tem amor. Também dói. É o trio elétrico do relacionamento: amor, ciúme, ódio. Vem no pacote.

 

Agora, se nem coração a leitora tem, então – desculpe a sinceridade – a leitora é zumbi. Aí não sei se posso ajudar, me parece que o amor acontece com quem tem coração. Sinceramente, não sei direito como funciona o amor entre vocês.

 

Zumbis me escrevem muito pouco email.