Acho sensacional que um doce de padaria tenha nome tão auspicioso: sonho. É como se o sonho de verdade (o sonho sonhado) também fosse assim, saboroso e calórico.

 

Na verdade, os dois são sonhos muito apreciados. Eita que dão água na boca. A gente fica flertando com eles, seja na prateleira da padoca ou na foto da revista, imaginando os sacrifícios a cumprir. Horas na esteira pra compensar as calorias – ou meses de dedicação para se chegar ao objetivo. A baunilha lá dentro é a nossa ambição, nossa gula, nossa tara. A primeira mordida é pra explodir o recheio pelas bochechas; pra gente se esbaldar de sonho. O de padoca engorda, o de vida acrescenta. Dane-se: queremos é nos lambuzar. Afundar o pé na vanilla.

 

Mas há uma diferença importante: a maneira como os sonhos nascem. A receita. No doce, o truque é repetir o procedimento como manda o livro. Respeitar ingredientes, quantidades, temperaturas. Fazer tudo sempre igual, feito a música do Chico. Já os sonhos sonhados são incontroláveis. Não existe fórmula a seguir. Vou dar um exemplo prático – e já aviso aos xiitas em geral: falarei heresias. Tentarei ser elegante. Se preferirem parar de ler por aqui, não faço bico.

 

Tinha esse meu amigo, o Claudio. Fez economia na GV, usava barbinha e trabalhava em banco. Aos trinta de idade, era o Lobo da Avenida Paulista. Se houvesse uma revista “Mundo Côxa”, ele sairia na sessão “Fique de Olho”. O sonho do Claudio era trabalhar na bolsa de New York. Sua baunilha, o dinheiro. Queria engordar a conta bancária, fazer o quê ? Sonhos também servem pra isso.

 

Claudio então seguia certinho a receita, tudo bem planejado. Todo dia o sonho saía igual do seu forno de anseios: mudar pra New York, trabalhar no mercado financeiro, ter uma Ferrari na garagem e uma casa nos Hamptons. Tinha que ser nos Hamptons, pra poder chegar de helicóptero.

 

Mas aí entrou a vida em si. Aquilo que faz desandar. O imponderável. Claudio conheceu Amábile. Note bem – Amábile. Uma mulher com esse nome só podia ser carinhosa. Então, aconteceu: Claudio sucumbiu ao afeto. Puseram açúcar no seu sonho.

 

Amábile mudou-se para o apê modernoso de Claudio – 140 m2 de madeira corrida e vazios. Amavam-se diariamente. Mas Amábile, que de boba não tinha nada, resistia em permitir o acesso a – como direi ? – lugares mais recônditos do seu corpo. Naninanão. Claudio insistia. Gostava de desafios. Então, Amábile negociou. Até aceitava disponibilizar áreas nunca dantes visitadas da própria anatomia, mas com uma condição: que fosse em Paris. Só liberava lá.

 

Rapaz, mas foram para Paris na mesma semana. A Cidade-Luz passou a ser o lugar que Claudio mais queria frequentar. Férias ? Paris. Fim de semana prolongado, feriado da consciência negra, summer friday ? Paris!

 

Claudio largou o banco, queimou os folhetos de imóveis em Manhattan, desencanou da América. Vendeu o apê na Vila Nova Conceição e comprou, junto com Amábile, uma pousada pé-na-areia em São Miguel do Gostoso, RN. Que reformou, pintou, mobiliou. E batizou, inspiradamente, de “Hotel Paris”.

 

Moral da história: sonhos são deliciosos, mas não dá pra ficar só em um. A gente tem que considerar os outros quitutes da vitrine cotidiana. Se um sonho azedou, troca de doce, ué. A vida é muito amarga pra querer engordar com uma vontade só.