Todo mundo passa pelo primeiro amor. Normalmente acontece ainda na adolescência, justamente quando a gente está enfrentando a Iª Grande Guerra Hormonal. Chega a ser crueldade. O amor causa suores, palpitações, dores no peito, cólicas invencíveis e aflições genitais. É tanta emoção que os estreantes no assunto podem imaginar que é um resfriado, uma virose. Mas não: chama “amor”.

 

É lindo. A gente agradece à Afrodite por estar acontecendo aquilo. É como descobrir o significado de Stonehenge, como experimentar um bolo mil-folhas sem nunca ter sentido o gosto de açúcar. Como ver Garrincha ao vivo, no campo.

 

Às vezes, o primeiro amor dá certo. São aqueles casais que começaram a namorar na escolinha – e continuaram juntos até serem enterrados na mesma cova, depois de 120 anos de relação. Os americanos chamam isso de college sweethearts. Tem uma ingenuidade que deixa a fábula ainda mais bonita. Mas é raro; quase sempre este romance colegial não resiste ao amadurecimento do casal. Pode durar anos, meses, dias – mas alguma hora serena e termina. E aí, junto com a glória do bem-querer, vem igualmente a tragédia de ser descartado.

 

Todo pé na bunda é difícil. Agora, esse inaugural, ah, esse é uma hecatombe nuclear. Aquele meteorito que caiu na Sibéria? Coisa mixa perto do primeiro fora. Arde tudo, incêndio na Antártica. Chora-se Niágaras e Iguaçús de desespero. O inocente, a juvenil nas lidas do romance, acha que nunca mais vai parar de sofrer, que nunca mais vai encontrar outra pessoa igual. As amizades em redor querem abreviar o desgosto, suavizar a penúria física, divertir a abandonada, destratar o culpado. É um apoio bem vindo, porque é dose.

 

E a pessoa deleta o outro das mídias sociais. E desanda a rasgar (metaforicamente falando) as fotos no Instagram. E diz que odeia (mas manda zapzap). E fica ouvindo canções da Adele. E começa uma dieta rígida à base de chocolate. Em resumo: purga o sofrimento, vivencia a dor em todo seu esplendor. Um processo, infelizmente, necessário.

 

Porque o fora inicial, aquele que dá início à série, faz a pessoa virar veterana nas disputas da paixão. Boina verde nas batalhas do desamor, fuzileiro naval nos desembarques do relacionamento. Tomar pé na bunda é estar em Omaha no dia D. Rito de passagem, como é a formatura e o nascimento dos filhos. Viver essa crise é preparar-se melhor para os próximos amores – que também não darão certo.

 

O normal é isso: não dar certo. Quem acha que amor é só festerê está despreparado para a vida. De todas as paixões que cada um contrai, só algumas poucas (íssimas!) realmente vingarão. A grande maioria vai dar em um beco sem saída ao invés do altar. Ter experiência em levar tombo, portanto, é imprescindível à sobrevivência. É que nem saber sair da areia movediça. Amor é tentativa e erro, é aprendizado. E, quase sempre, a alfabetização no assunto exige levar bomba de cara, logo no primeiro exame.