Minha coluna tem mais curvas que a estrada de Santos. Cifose, lordose, escoliose – tenho tudo que termina em ose. Durante anos, eu combati os males ortopédicos na natação. Eram horas olhando pro fundo da piscina e pensando em meus perrengues cotidianos. Quando me toquei que continuava falando sozinho depois, no vestiário; que além das lordoses e cifoses estava caminhando também para a psicose, resolvi migrar de esporte. Fui pro Pilates. Hoje, sou faixa preta em Pilates. Quimono dourado. Se organizarem o Circuito Mundial de Pilates, eu ganho até dos chineses do Cirque du Soleil.

 

Não foi fácil chegar até aqui, confesso. Pra ser sexto dan em Pilates eu tive que penar muito. Na modalidade que pratico, o Pain Pilates Hard Suffering, a terapeuta fica na cola do atleta o tempo todo. Cada postura é uma orientação impossível. Penduram a pessoa em maquinários que tiram sarro descarado da Lei da Gravidade. Não se deixem levar pelo cromado, pela arquitetura dos aparelhos – são instrumentos de padecimento medievais. Graças a esse esporte de alto rendimento, aprendi muita coisa. Por exemplo: a localização do Piriforme, um musculozinho com meros três dedinhos de espessura – mas que, quando irritado, alia-se ao vizinho nervo ciático e faz a pessoa andar que nem o Quasímodo.

 

Aprendi, também, que há muitas correspondências entre o Pilates e a vida. Começando pela própria instrutora. A sua fisioterapeuta pessoal tem que ser do bem, tem que combinar com você. Ou a coisa não caminha. Explico: a moça vai ficar mandando fazer exercícios e respirações, tudo muito complexo e sofrido. Se não bater o santo, na segunda acrobacia você parte pro estrangulamento. Então, Pilates é igual casamento: você tem que achar a parceira ideal – e aí fica mais fácil enfrentar as dores do cotidiano.

 

Pilates é postura, também. Muito do esporte vem da ioga: você fica na posição certa, por mais custoso que isso possa ser, sentindo os músculos tremerem, entrando em falência vagarosamente. E nessa dinâmica de manter a pose estática, você vai ficando forte e cada vez mais no prumo. Tem que prestar atenção na posição do corpo, porque rapidinho a pessoa distrai e fica tudo torto. De novo, é como no trabalho, em casa, com os amigos: você tem que ter postura. Tem que ser um cara reto. Por que? Porque é o certo, ora. Porque se você procurar ser um sujeito ético, só espalha o bem. E isso volta.

 

Por fim, tem essa fama que estraga o humor dos federados em Pilates – como eu. As pessoas acham que é fácil. Não é. Tem posições que, juro, eu estrebucho em caimbras e suores escandalosos. Quando estou dependurado de cabeça pra baixo, e me mandam fazer flexões de braço sem mexer os ombros, chego a entrar no túnel do desmaio. Fica tudo preto, com estrelinhas e tocando Enya ao fundo. Preciso sentar pra não dar vexame; sempre tem muita mulher ali na academia. É um suplício.

 

Quem acha que Pilates é moleza recomendo que procure a Fernandinha, minha fisioterapeuta. É uma com o brinco no nariz. Não se engane pelo rosto bonitinho: é moça cruel. Estilo sargento de filme de fuzileiro. Saibam o seguinte, antes mesmo do primeiro alongamento: Pilates é como a vida. Se estiver fácil, está errado.