O que a gente deseja sempre é um relacionamento longo; é a sorte de um amor tranquilo, que dure até um meteoro destruir tudo isso aqui. Mas, rapaz, como é difícil dar presente pra outra parte, não? Calcule comigo: aniversário, aniversário de namoro, natal e dia dos namorados. São quatro datas para presentear, por ano. Sem contar mestrado, primeira maratona, promoção – essas efemérides pontuais.

 

Vamos considerar, para efeitos de crônica, que é um relacionamento de cinco anos. Isso significa ter ideia para vinte presentes. E não são simples recuerdos. Tem que ter significado, relevância e sabedoria. Dar o presente errado significa não conhecer a amada direito. Pecado mortal.

 

No começo do namoro é fácil. É o presenteador querendo mostrar que está atento à diplomacia do amor. Mimos criativos são bem aceitos – mesmo que a sua musa não precise de um tapete de pele de alce no banheiro, por exemplo. A companheira acha tudo folclórico, comenta com as amigas, riem juntas achando que bonitinho. Ah, o começo…

 

Conforme o tempo passa, e o casal se conhece melhor, é esperado que os presentes já prestem para alguma coisa. Note (e esta é uma das pegadinhas): é bom que ainda sejam presentes criativos. O sujeito tem que mostrar que pensou no assunto, que tentou surpreender. Prendas de baixo valor são bem aceitas, desde que significativas. Uma aliança feita com a corda mi do cavaquinho! Baita boa ideia: mostra criatividade, erudição (a frase é do Adoniran) e, claro, carinho. Alianças, mesmo as toscas, são sempre bem recebidas.

 

Aí o namoro realmente engrena – e o casal começa a comemorar os primeiros anos juntos. Essa fase é simples. Depois de algum tempo junto, não há mais a necessidade de ser criativo. Você tem que ser basicamente útil. Basta atentar para o que a outra parte está precisando, e meter no cartão de crédito. Fique tranquilo numa coisa: ela vai dar dicas. “Olha que relógio bonito!”, ou “claro que estou atrasada; não tenho como ver as horas!”. Cuidado: errar, aqui, vai dar a impressão que você não repara nela – queixa já frequente quando ela corta o cabelo.

 

Depois de uns dez anos juntos, a tendência é simplificar o processo. Porque tem as contas pra pagar, supermercado pra fazer, reunião logo cedo – e essas demandas sufocam o romantismo. Ô coisa broxante que é a responsabilidade, vou te contar. Daí então que os dois – juntos –  vão dar um rolê no shopping, pra aniversariante escolher o que bem quiser. Veja você que não tem mais a criatividade, o risco, a inspiração. É pragmático. Romário dentro da área.

 

Por fim, tem a fase que o casal decide não dar presente algum. Os incautos, aqueles que nunca amaram longamente, podem achar o cúmulo. Ah, que desinteresse! – pensam. Negativo: se o casal está junto há milênios, provavelmente já constituiu família. E famílias custam caro; ninguém pode sair assim, dando mimos quatro vezes por ano. Sabe quanto está o quilo de carne moída? Sabe quanto está a escolinha de inglês?

 

Dar presentes é complicado. E quanto mais tempo junto, mais difícil. Mas tem um truque: sapatos. Sandálias, de salto, fechadinhos, o que for. Funcionam sempre, em qualquer fase.