A primeira vez que ouvi falar de algoritmo foi na escola. Deve ter sido na aula de matemática. Como enveredei pelas letrinhas, achei que nunca mais teria contato com o assunto – como realmente aconteceu com as mitocôndrias. Mas, de repente, tal qual adolescente desengonçada que depois reaparece Gisele Bündchen, o algoritmo voltou à minha vida.

 

Começou com a Amazon indicando livros baseados no meu próprio gosto pessoal. Adorei: facilitava a vida – mas não sabia que tal seleção era só resultado do algoritmo. Que investigava meus dados, estudava meus clicks e traçava tendências. Achei que era um anãozinho gentil, que percorria a livraria imaginando o que mais eu iria gostar. Em seguida, comecei a receber emails de penis enlargement. Me perguntei: quem falou? Foi você, Suzana, sempre maldita? Ou foi você, Patrícia, eterna insatisfeita? Antes de divulgar nudes em represália, descobri quem tinha espalhado a notícia: algoritmo. Como todo homem tem pinto, é um cálculo simples (embora injusto). Quer dizer: saem caluniano a estatura peniana da pessoa, e quem que eu vou processar? A Nasa? Pitágoras?

 

Daí, fui olhar casa pra alugar em Ubatuba, o algoritmo me flagrou feito radar  – e pronto: nunca mais pararam de me oferecer imóvel na praia. Depois, o Facebook começou a selecionar as notícias que eu deveria ler primeiro. Sem eu pedir. De novo: algoritmo. Comecei a ficar cabreiro. Que história é essa? Quem é o Facebook para escolher (por mim) o que eu tenho que ler antes? Tudo bem que esta seleção é feita a partir do meu hábito de leituras, mas e se eu enlouquecer? E se eu resolver ler só posts da Ronda Rousey? Estão reclamando da minha centimetragem; posso muito bem querer rever meus princípios literários.

 

Veio o Tinder. Que escolhe casais a partir de – adivinhem? – algoritmos. Os namorados passaram a se conhecer dentro de um padrão aritmético – e não mais num bar. A imprevisibilidade caótica de uma união, o irracional do amor, o óleo na água, tudo foi pra cucuia. O romance tem mais a ver com o sujeito que inventa as fórmulas, provavelmente algum nerd ruivo de cueca aparecendo, do que com a outra parte do casal.

 

Tudo virou previsível, matemático e impessoal. E não está acontecendo só nos ambientes virtuais, não. As pessoas saem padronizadas da faculdade e MBAs, sem jogo de cintura, tomando decisões baseadas em modelos, regras e ordens globais. Acham que o risco é arriscado, como se a vida não pedisse coragem.

 

A humanidade está asfixiando justamente aquilo que nos faz seres biológicos: a intuição. A capacidade de, mesmo com tudo sugerindo o contrário, decidir confiando no instinto. No faro. Naquilo que fez Albert Einstein propor coisas que só agora, cem anos depois, encontram confirmação cabal.

 

Mas, não: as pessoas querem o controle, a segurança infalível da ciência. Preferem seguir a indicação amorosa do nerd ruivo de cueca aparecendo, que não dá um beijo tem seis meses – mas escreve um puta algoritmo. Ele, sim, deve entender de relacionamentos. Ôpa. E de passeios no parque. E de cheiro no pescoço. E de Tom Jobim. E de margueritas. E de ciúmes. E de saudade. Coisas muito lógicas mesmo.