Falo por mim: o primeiro beijo com uma pessoa é sempre um desafio. Se houver uma evidência escandalosa que a aproximação é segura, se o atacante souber de antemão que o goleiro está de pileque, teoricamente basta esperar tocar uma canção do Roberto, procurar o olho-no-olho, deitar a cabecinha um pouco de lado e nhac!

 

Mas para os mal-ajambrados, os anônimos, os tímidos, os desajeitados e os inseguros nunca é assim. As dificuldades começam na negociação, por assim dizer, entre a boca que quer beijar e a que pretende ser beijada. É vital saber que o movimento de aproximação terá êxito. Receber uma virada de cara é muito constrangedor, para não dizer traumatizante, e chega a comprometer até as futuras conquistas. Não que seja necessário uma declaração em três vias ou autorização da torre de comando, mas a gente precisa ter uns 90% de certeza. Talvez mais. Para não passar vexame. Tapa faz muito barulho, e ouvir melhor não faz mais barulho ainda.

 

Os amigos em comum podem ter participação importante. Eles fazem chegar informações. A mais valiosa: sim, ela (ou ele) topa. É a tal autorização da torre. Dá tranquilidade para quem vai dar o bote. Outra coisa boa é trocar mensagens com a parte contrária, evidenciando interesses e sugerindo evolução nas tratativas. Claro, isso com charme e elegância. Escrever é seduzir; vamos lembrar que Vinícius casou nove vezes. Para os tímidos, é uma conduta segura – permite o abrigo atrás das telas. Para os caras-de-pau, é adiantar o assunto mesmo. Caras-de-pau nem deveriam poder usar Zapzap, porque a vida é mais fácil para eles. Caras-de-pau com porte de Zapzap deveriam passar pelo antidoping. Senão, é covardia. Sinceramente.

 

Mas vamos supor que a aproximação é livre de perigos, que a pista está livre, que a Enterprise está sem os escudos de defesa. Mesmo assim, não é tão fácil para os mortais – como sugere o primeiro parágrafo. Os ansiosos querem resolver logo de cara. Tentam beijar no carro mesmo, com cinco minutos de jogo, para tirar o problema da frente. Pega mal. O ritual precisa ser respeitado. Tem que pintar o clima – e isso acontece com o desenrolar das horas e o desarrolhar dos vinhos. Há uma narrativa: sentar perto, tomar umas, sentar mais perto ainda, esperar aquele momento sem-assunto que obriga o beijo a sair da boca – e aí, finalmente, sentar realmente grudado. Sem pressa. Na pior das hipóteses, se a ocasião não tiver aparecido para o ladrão, há sempre o desespero final: a hora de deixar a pessoa em casa, no fim da noite. Você sabe como funciona. Faz que vai abrir a porta pra ela descer e pimba. É recurso manjado, quase cenozóico, mas ainda funciona. E o que buscamos não é um prêmio de inovação; queremos só o tal beijo inaugural.

 

Ainda que não tenha surgido o momento para este primeiro beijo, mesmo se o álcool e a música não tiverem permitido a inauguração bucal do casal, vamos lembrar que o amor ainda tem muita chance. O embaço, a demora, o ir-e-vir são deliciosos para o romance. Vale esperar; o primeiro beijo de um casal só acontece uma vez. O desafio, a partir daí, é outro, bem mais complicado: fazer com que este primeiro beijo também não seja o último.