A vidinha, 12 mil anos atrás, era de boas: a gente ficava meia hora por dia caçando, e o resto do tempo desenhando na caverna. Nosso DNA é de caçador e de coletor. Fomos feitos pra catar do chão, pra correr atrás de Mamute girando tacape. Olha os nossos dentes. São pontudos e afiados. É pra destrinchar carne crua. Foi assim até o Sapiens (nós) começar a pensar mais. A ter ideias complexas e abstratas, a ser diferente do resto dos bichos e até dos parentes mais próximos (os Neandertais). Foi a primeira vez que trabalhamos contra o nosso DNA. Pensando, renegamos nossa origem de animal. Alguns historiadores chamam isso de Revolução Cognitiva. O israelense Yuval Harari, autor do livro “Sapiens”, é um deles.

 

Nessa de usar mais o cérebro, alguém teve a brilhante ideia de plantar em vez de sair pegando do chão. Era cômodo, previsível e dava menos dor na lombar. Começamos a comer vegetais, veja se tem cabimento. Saímos enfiando sementes pela terra. As aldeias ao redor da lavoura foram crescendo, o povo foi ficando, e o Sapiens foi obrigado a plantar mais pra alimentar a rapaziada. De novo, fomos contra o nosso DNA original de nômade, que andava por aí, desencanadão, pegando do chão. Batizaram a fase de Revolução Agrícola.

 

Depois de renegar duas vezes nosso DNA original de bicho-burro, a gente ficou matutando por milênios. Como não tínhamos resposta pra tudo, inventamos as religiões. Quando alguém perguntava por que tinha aparecido a Peste Negra, a resposta vinha fácil: Deus quis. Ficamos empacados nessa até que Copérnico e Galileu peitaram o Vaticano, afirmando que a Terra girava em redor do Sol. Aí, a porteira do conhecimento escancarou. Não houve como impedir; descobrimos trilhões de coisas. Foi a famosa Revolução Científica.

 

Pois bem: estamos vivendo outro momento desses, histórico. É a Revolução de Gênero. Na época das cavernas, nosso DNA jurássico determinava o poder em casa: homens. Mandavam os fortes, aqueles com mais chance de pegar um Mamute pro jantar – e as moças que ficassem varrendo a gruta. Só que em 2016 ninguém precisa mais ser o Chuck Norris para trazer comida para casa. Basta passar no Mambo.

 

A história vai mudar, de novo. E para sempre. Não tem muito o que se possa fazer – como não havia como deter a Revolução Cognitiva. E não estou falando só do feminismo, da luta por salários iguais (pra citar uma causa). A treta é maior. O Facebook, sempre atento aos rumos da Humanidade, acrescentou 60 (!) novos gêneros sexuais no cardápio de botõezinhos. E aí o usuário escolhe onde melhor se encaixa. As opções vão de Andrógeno a um negócio chamado Two-Spirit (não sei o que é).

 

Como sempre acontece em revoluções, vai aparecer resistência. Será inútil. Você vai ter que se acostumar, por mais absurdo que possa parecer essa nova vida. Sessenta gêneros diferentes? Não vai ter banheiro para todo mundo – e essa é só uma das questões. Tire seu preconceito do caminho que outra revolução está chegando.