Adoro monges budistas. São iluminados. No sentido do conhecimento, mesmo. Matthieu Ricard, por exemplo, é monge – e se formou em genética molecular. Andou palestrando pelo Brasil. Sujeito espetacular. Fucem no You Tube. Olha que legal que ele contou: para demonstrar cientificamente os benefícios da meditação, alguns monges passaram por uma ressonância magnética enquanto praticavam. Matthieu ficou seis horas no aparelho, meditando. Eu não consigo ficar dez minutos parado naquele tubo que me dá agonia, aflição e desesperos generalizados – imagina horas?

 

O resultado dos exames é sensacional: a meditação ativa no cérebro as áreas ligadas à felicidade e ao bem estar. Ficam acesas, azulzinhas, pulando de júbilo.

 

Se ajuda a pessoa ser feliz, estou dentro. Como faz, então? É só sentar num canto e sair pensando? E pode qualquer assunto, tipo o último episódio de Mad Men, ou os coroas lá da Fifa dando vexame? Negativo: meditar é primeiro ficar pensando em coisas pelas quais você tem afeto. Tem que começar assim, de leve – e ir evoluindo até conseguir pensar em nada.

 

Matthieu então passa um treinamento para meditação. A) Escolha um lugar calmo pra pensar em coisas que você realmente gosta. Você pode imaginar uma praia linda, um laguinho estilo Monet, até mesmo uma pessoa gente boa. B) Fique pensando nisso por dez minutos, prestando atenção na respiração. C)  Vá aumentando o tempo de treinamento aos poucos, até conseguir deixar a cabeça vazia de tudo – e pronto, estamos meditando.

 

Resolvi encarar os treinamentos. Ia ser difícil: sou mais irrequieto que um Beija-Flor. Mas vamos tentar. Primeiro, vamos definir essa coisa pela qual nutro afeição. O assunto. Era pra ser um tópico de cada vez, mas na hora que abriu a porteira veio uma avalanche incontrolável de afetos: família, futebol, tênis, a Sharapova, a Angelina, torta de morango, massagem no pé, House of Cards, Bloody Mary, Ubaldo (e a Bahia como um todo), Led Zeppelin e filme de Zumbi. Sim, tenho muito afeto por sexo. Mas ficou fora da lista. Ainda sou meio primitivo: pensar no assunto pode ativar partes mais independentes do cérebro e até do corpo, inviabilizando a meditação.

 

Então esperei a casa estar vazia, botei um jazz bem baixinho e comecei. Meditei, me concentrei – até acordar meia hora depois, com a marca da fronha na bochecha. Fué. Tentei de novo no dia seguinte: comecei pensando que estava em Itacaré. Depois, visualizei um bolo de laranja esfriando, em cima da mesa da cozinha. Em seguida, projetei meus cachorros tomando sol no quintal. Aí um pernilongo invadiu minha meditação e eu tive que interromper a prática para achar a raquetinha elétrica. Dengue atrapalha a concentração. Tentei retomar a linha de raciocínio em seguida. Não consegui; minha perna não parava quieta. Tentei mais duas vezes. Desisti quando começou Duro de Matar 2 na televisão.

 

Me reconheci derrotado. Frustrado. Incapaz de sossegar, fadado a ser infeliz. Então fiz como todo mundo, quando se sente assim: fui procurar alívio na cozinha. Achei um chocolate.

 

Foi o que salvou. Na primeira mordida já me sentia melhor. Na terceira, era capaz de rir até de topada de dedinho. Estava eufórico, com o cérebro todo aceso. Lembrei então de uma outra pesquisa: chocolate também ativa as partes ligadas à felicidade no cérebro, através da produção de serotonina. Era a salvação, a felicidade acessível a todos – inclusive aos agitados. Você não consegue meditar, não tem vocação para a iluminação, é ansioso demais ? Tudo bem: nada que um Lindt não resolva.