Gustavo abriu a porta do apê com bastante dificuldade: o buraquinho da fechadura tinha diminuído muito de tamanho enquanto ele bebia, lá no bar. Deve ter feito algum barulho arrombando a porta, porque o maltês do vizinho latiu até se esgoelar. Tirou os sapatos para evitar o nhec-nhec do assoalho, e veio caminhando pela sala deixando pegadas de talco pelo chão. Gustavo não sai de casa sem polvilhar um English Lavander no tênis; é sujeito asseado. Entrando no quarto, não notou a perna da amada ali, estirada pra fora da cama, feito armadilha para vietcongs. Mônica (a esposa) tem um e setenta só de perna – e dorme assim, espalhafatosa. Gustavo, com a motricidade prejudicada pela escuridão e pelo pisco, infelizmente tropeçou na perna da Mônica e tchibum: caiu em cima dela na cama. Arrastando consigo a samambaia do quarto.

 

No café da manhã seguinte, Gustavo gemia de ressaca na cama enquanto uma emputecida Monica limpava as pegadinhas da sala. Levantando-se em seguida, foi fumegando até Gustavo para lhe dizer o seguinte: hoje estou te amando menos.

 

Percebem? Apesar do evento desastrado e – ouso defender – inocente do dia anterior, Mônica só conseguiria amar aquele homem um pouco menos. Mesmo com o bafo de acetona, mesmo tendo deixado sua canela roxa, Gustavo ainda merecia seu amor. Não tem ódio, não tem ponha-se daqui pra fora, nada. Só amor, em menores doses.

 

Isso, de amar menos (mas continuar amando) é interessantíssimo. Porque sugere que amor é vício, e o jeito mais fácil de se livrar dele, caso necessário, é diminuindo a dose aos poucos – até sobrar nada de dependência. É como fumar menos cigarros, ou passar pra uma marca com menos nicotina. Ou seja: Gustavo corre risco de desintoxicação alheia. Se cometer outro deslize, haverá mais cortes na quantidade de amor  – até ficar somente um mísero fiapo insustentável de afeição. Essa versão faz sentido pra muita gente.

 

Mas eu, que vivo de poesia e farinha integral, acredito em outra hipótese. Me acompanhe: existem casais que nasceram um para o outro. Nunca vão deixar de se amar. O máximo que conseguem é amar um pouco menos. Ah, mas aí vão dizer que é uma relação ingrata, porque Gustavo pode aprontar o que quiser que sempre será amado – embora menos.

 

Acontece que Gustavo se desespera em ser menos amado. Sabe do potencial afetivo de sua esposa, e quer aquilo por completo. O amor é uma conquista, e Gustavo faz questão de tudo que tem direito. É como se, de repente, os Estados Unidos fossem obrigados a abrir mão da Califórnia. Mesmo sem a Califa, continua sendo Estados Unidos, continua sendo dólar – mas qual é a graça de não ter mais Los Angeles, San Francisco, San Diego, vinhos, Tom Hanks, Hollywood, os pornôs todos, a Apple, a Disney original?

 

Encurtando a história, Gustavo faz dois meses que só toma suco de tomate. Outro dia foi até em um chá de bebê com a Mô. Pelos sorrisos, parece que está sendo bastante amado. Ninguém é louco de abrir mão da Califórnia.