Com a charmosa Chantal e o luminoso Luis não houve quem os apresentasse, quem fizesse o meio campo. Foi esquema Old School mesmo: se encontraram na fila do banheiro do bar, como tantos casais, cruzaram olhares e trocaram conversa mole. O santo bateu, mesmo sem terem conseguido levar essa simpatia inicial às últimas consequências. Na hora de irem embora, veio o “você tem feice?”.

 

Os dois tinham. Então combinaram de continuar o encontro por ali. Melhor desse jeito: até o mais covarde dos Casanovas consegue se defender atrás da tela de um computador.

 

Chantal era moça empoderada, dividia conta, ganhava bem, era chefe no trabalho. Acreditava na igualdade dos gêneros. Mas, mesmo assim, esperou ele se movimentar primeiro. Esperou ele pedir amizade. Ainda no Uber, indo embora da balada, Luis se manifestou. Plim na tela do celular.

 

Ela sorriu e soube se controlar. Foi dormir com a solicitação de amizade pendente. Mas, logo no dia seguinte, dane-se! Já da cama aceitou a solicitação e virou friend dele.

 

Foi direto pras fotos, para vasculhar sua vida pregressa. Queria saber se era comprometido. Nenhuma imagem indicava relacionamento recente. Foi pra 2016 – mesma coisa. Passou os olhos por 2015, 2014 – e nada. Nenhuma moça constante, nenhuma presença feminina frequente. Ela começou a desconfiar: como assim, não tem namorada desde 2014? Foi olhar nos dados pessoais: ele tinha 35 anos. Piorou: 35 nas costas e nenhum relacionamento estável nos últimos 3 anos?! Será que escondia uma mulher, será que escamoteava um marido? Não ter relacionamento nenhum em três anos é quase tão ruim quanto ser casado. Eita, tem que ver isso aí. Seria ele, Luis, um adultescente? Moço de 35 numa inteligência emocional de 16?

 

Foi vasculhar mais. Começou a investigar suas postagens. O diagnóstico foi terrível. Ele postava o tempo todo, era um locutor de sua própria existência. Postava até quando ia dormir, naqueles irritantes “agora é descansar pra amanhã”. Como se alguém quisesse saber. Lavava roupa suja, fofocava dos amigos, dava spoiler em filme, criticava a esquerda como se todo mundo fosse burro e só ele conseguisse ver o óbvio. Postava selfie sensuais com frases estilo seicho-no-iê, de efeito, para parecer que a selfie tinha algum valor acadêmico. Chamava os amigos de corja, de bando de marginais – e não era crítica. Tirava foto sem camisa na frente da churrasqueira. Tirava foto dos pés com o mar em segundo plano. Tirava foto na frente de Ferrari, fazendo hang loose com a mão.

 

Rapaz, foi uma decepção. Quando as pessoas simplesmente trocavam telefones, era melhor. A descoberta dos defeitos era aos poucos, e eventualmente dava até pra ir acertando a personalidade do outro conforme o romance engatava.

 

Chantal não se sentiu compelida a continuar a amizade no mundo real. Necas. O que ela tinha visto já tinha bastado. O feice tem essas coisas: quanto mais a gente conhece as pessoas, menos quer conhecer as pessoas.