Em casa, na tenra infância, lembro que tocava muito Vinicius. Cresci ouvindo que é melhor ser alegre do que ser triste. Colocado desse jeito pelo poetinha, a felicidade seria uma opção igual comprar laranja ou mexerica no super – questão de gosto pessoal.

 

Parece fácil. Mas não é. Tem gente que vive de ovo virado – e não é escolha pessoal. Simplesmente acontece. Coisa de hormônio, da química orgânica – matéria que, neste caso, tenho uma vaga memória. Prefiro muito mais lembrar de Vinícius de Moraes do que do Cloreto de Amônio. Então, pra alguns, quando a descarga de elementos químicos desce goela abaixo, emputecida, a pessoa não consegue evitar: já sai mandando todo mundo pra… enfim, a pessoa perde a compostura.

 

Certo. Mas isso é verdade? É melhor viver contente do que viver carrancudo? Funciona mesmo, ou é papo da moda, que nem supostamente o glúten? Quem disse? Quem falou? Então: os médicos. Segundo os doutores, povo bom de química orgânica, a felicidade libera endorfina. É o mesmo hormônio produzido depois da acupuntura e de exercícios em geral – famoso hormônio do bem estar. Sim, sorrir é tão benéfico quanto correr na esteira. Melhor ainda se você estiver correndo na esteira, assistindo Débi & Lóide no monitor, com agulhas de acupuntura espetadas pelo corpo todo. Aí a endorfina escorre pelas orelhas.

 

Além de ser o hormônio do sábado de tarde, a endorfina também ajuda de outra maneira: ela inibe o cortisol – uma das substâncias produzidas oceanicamente nas situações de estresse. Não chega a ser ruim, o cortisol. A princípio, ele aparece para deixar a pessoa mais ligada, pronta pra luta. O ruim é que como não pulamos no pescoço de ninguém, como somos civilizados, a coisa vira problema de saúde. Ué, se vem do estresse, vem com tudo de ruim que ele provoca – enfarte, pressão alta, alergias. Pra resumir o teretetê: ser alegre diminui o risco de doenças no coração.

 

No cinema, grande simulador de vida, temos vários exemplos com o resultado prático dessa felicidade. Um deles, o filme francês Intocáveis. Pra quem não viu: um imigrante negro, desempregado e lascado, aceita ser cuidador de milionário tetraplégico rabugento. Virgem santa: contando, parece história de chorar Cantareiras. Filme com salas vazias e melancólicas. Mas a opção do diretor foi pela alegria. E aí nasceu uma comédia adorável, alto astral – e sucesso de público. É o filme francês de maior bilheteria no mundo desde a queda da Bastilha. Mais de 25 milhões de ingressos vendidos – sem contar Netflix e Torrents. Ou é melhor mesmo ser alegre do que ser triste, ou temos 25 milhões de pessoas desenganadas, cantando fado – ao contrário de saudáveis, dançando reggae.

 

Comigo, o mau humor não é químico. Portanto, posso optar. Então, escolho: vou ser alegre. Vou realizar o sonho da minha avó Conceição e virar cardiologista. Só que, em vez de remédios, vou prescrever piadas. Em vez de Isordil e betabloqueadores, pilhérias e gargalhadas. Vou abrir um consultório no Bexiga e vou escrever na porta: não me levem a sério. Quem quiser consultas, só marcar com meus assistentes. Podem falar com o Patati ou com o Patatá, tanto faz.