Soube que as pessoas acham sua namorada um porre.

 

Sei como é. Ela chega na mesa do bar e não interage nem com o garçom. Faz cara feia diante de piadas sabidamente geniais, quer ir embora cedo. Pior: quando você e seus amigos começam a contar histórias do arco do onça, ela comete o pecado de não achar graça. Fica lá olhando pro teto, com expressão de “que fedô”. Todo mundo na cerveja – e ela tomando refri diet. Quando tem jogo de Copa, ela levanta e fica na frente da TV bem na hora do escanteio. Aí, basta você e ela irem embora que começa a maledicência. Imperdoável – pensam os amigos. Perdemos nosso companheiro – comentam entre dentes. Acham sua gata igual à Meryl Streep no “Diabo Veste Prada”, somada à maluca que prendeu o escritor no “Misery”.

 

Bom, falar mal depois que o casal foi embora é uma baita covardia. A moça nem pode se defender.

 

Nem pode explicar que as histórias de quinze anos atrás são mais sem graça que tofú de água – por isso o rosto sério. Ou que fica em silêncio porque não foi pra Praia do Rosa em 98, nem conhece as pessoas citadas nos causos. Que não toma cerveja porque dá enxaqueca. Que quando a bexiga aperta, pode ser escanteio ou a hora que a noiva joga o buquê – ela precisa ir ao banheiro e dane-se. E que é difícil ser simpática quando toda vez que ela levanta da mesa tem alguém conferindo seus glúteos.

 

Assunto complicado. Um grupo de amigos é montado ao longo dos anos por afinidade; é duro ser incluída assim, do nada. Pra muita gente, namorada é como vampiro – tem que ser convidada a entrar. Não basta o amigo simplesmente aparecer e dizer: esta é Amanda e eu estou amando.

 

Deixa eu te contar o que acontece. Se você não está apaixonado, é fácil: assim que passar o desespero da carne, quando acabarem as curiosidades, o casal se separa e o problema termina. Festa no bar.

 

Agora, se você é apaixonado, aí que a coisa pega. A saída acaba sendo traumática: você vai se afastar dos seus bróderes. Não vejo outro jeito. Você não quer desagradar a namô, expondo-a aos olhares críticos. E também não quer passar recibo de bunda-mole para os amigos porque (segundo eles) escolheu uma chata. Nessa hora, é a rapaziada pra um lado, casal pro outro. Quando muito, você vai encontrar com eles em pizzadas cada vez mais raras. Ela não vai – preservando o grupo e possibilitando o consumo de pizza de alho.

 

Pode até ser que os amigos tenham razão. Tem muita mulher intragável no mundo, ô se tem. Mas tem muito homem babaca também. Então empata. Só que é o seguinte: a obrigação dos amigos é persistir. Não se abandona um parceiro assim, diante de uma cara amarrada. O que se espera de um camarada é que ele engula desaforo, sorria mesmo quando não quer e trate a dama com decência. Ainda mais ela estando com você, ora essa.

 

Mas sabe o que eu acho ? Que se mulher fica chata é porque está sendo mal-amada. Pode ser que falte carinho, ouvidos, jantares, sensibilidade, um monte de coisa – e aí a pessoa azeda. Pode ser que a culpa não seja dela, nem dos amigos. Pode ser que seja só você que não sabe encantar. A se pensar.