Conhecem a expressão pavonear? Vem do hábito acasalador desta decorada ave, o Pavão. Quando ele quer ganhar uma fêmea, quando ser notado, o Pavão abre a cauda em milhões de cores e matizes. É uma cauda que mistura LED e LSD, pra ficarmos atualizados nas tecnologias visuais e químicas. Impressiona, e as fêmeas – algumas – acabam solapando diante de tanta beleza.

 

Dito isto, considere um rapaz assim, como eu: careca. Ou um sujeito baixinho. Ou mesmo um rapaz cabeludo, alto – mas com alguns buraquinhos de espinha nas maçãs do rosto, lembrança da adolescência encalhada. Não temos a cauda, percebe? Nada estético, lindão, laureado, nada que possamos apelar. O que nós, que também não somos ricos, temos é a personalidade. Uma inteligência exibicionista, um comentário bem encaixado, uma opinião diferente. É assim que nos pavoneamos.

 

Nessa, o bom humor é arma mortífera. Seres humanos – meninos e meninas – adoram uma piada. Diante de uma moça bonita, os mal-feitos pela natureza desembestam a fazer graça sobre quase tudo. É uma atrás da outra, pra não deixar a dama respirar mesmo. Com a experiência dos anos, aprendemos inclusive a evitar assuntos que, apesar de potencialmente divertidos, podem causar celeuma. O humor das pessoas muda todo ano; tem piada que era boa em 2014 – mas que hoje rende apedrejamento virtual sumário, nossa senhora.

 

E humor dá certo. Está provado que funciona. Daí o sujeito sai provocando, caçando sorrisos. Quer chamar a atenção da dama, quer impressionar, quer mostrar que não faltará assunto em um – quem sabe? – jantar a dois. A moça ri, mostrando o piano dentário cintilante, o investimento bem feito em odontologia. Tudo certo. Até que ela, limpando as lágrimas de tanta alegria, diz que você é “figura”. Percebem? Chamou de “figura”! Aí, rapaz, pode desistir. “Figura”, para quem entende do assunto, significa “acho você engraçado, mas não vou te levar a sério”. “Figura” é a mesma coisa que “gosto de você como um irmão”. É broxante. Você serve para comentários jocosos no zapzap, para ouvir confidências, para ir em passeata no Largo da Batata – mas não para as lidas do amor.

 

E não há nada que possa ser feito. Você escolheu o caminho da graça, acreditando que seria uma trilha inca levando para o Machu Picchu do amor. Não deu certo: você virou “figura”. O jeito é encaixar o golpe e ir contar piada em outra freguesia. Você poderia até tentar outra persona bastante eficiente na sedução: o Bad Boy. Sujeitos maus também têm seu encanto; sugerem aventuras indescritíveis e perigos incessantes. Mas, desde o primeiro Sapiens, nenhum “figura” ainda conseguiu virar Bad Boy. Seria uma mutação inédita na biologia. “Figuras” são bonzinhos, nunca Bad Boys. Um dia vão dar valor.