Prestem atenção nos muros de São Paulo. Os pixos, os grafites, os desenhos, as frases. É a tal arte urbana. Gosto especialmente de dois ditos. O primeiro é O Amor é Importante, Porra. Claro que é. Há mais verdade aí do que em todas as novelas das Globo. O próprio palavrão, no final, enfatiza a intenção. Reforça a tese. É como se alguém desse um soco na mesa, pondo fim a uma discussão inútil – porque é evidente que o amor é importante. Caramba.

 

A outra frase é Mais Amor, Por Favor. É ótima, quase uma canção do Criolo. Gosto do sentido de urgência. Tipo quero pra ontem. Tem também um ligeiro desespero, reparem. Está no por favor. Imagino a pessoa sofrida, cheia de chororô, pé inchado de tanto dar na bunda de imprestáveis, implorando para aparecer alguém que a respeite, que a ame, que a trate como Tony Ramos trata Lidiane. Que a cante como a seleção de vôlei canta o hino. É pessoa educada, esta que pixa. Não usa o mesmo palavrão da frase anterior. Ao contrário, pede educamente. Podia estar roubando um coração indefeso, mas não: está só pedindo.

 

Notem também que a frase começa com mais. Não está querendo pouco, o autor. Quer bastante, litros e litros disso que desfila hidraulicamente pelo coração. Reconhece que há algum amor no mundo, em algum lugar, mas julga quantidade insuficiente. Sugere que estamos nesta zica (com “c”, de zicado, de lascado, de tretado), porque temos pouca afeição.

 

Então, sabemos o que queremos: amor de monte. Mas o que significa isso? Mais dinheiro rende mais amor ? – pergunta o financista. Não – responde o emergente. Grana gera menos preocupação, um melhor lugar pra morar, noites bem dormidas. Pode até proporcionar uma quantidade grande de affairs, mas de sinceridade discutível. Os levianos, alguns até com razão, dizem que onde há dinheiro não há tanto amor assim. Acho que é questão de discutir o que é riqueza. Eu sou milionário em frases, desperdiço de monte – e também sou um sujeito amoroso, podem perguntar.

 

Mais amor significa mais respeito. É muito feio sacanear com o ser amado. Há um conluio querençoso na ideia de amor. Os dois do casal estão de acordo em oferecer o melhor para o outro. Por exemplo: ser verdadeiro, ser cúmplice, acordar o outro com leveza, reclamar suavemente se a pessoa erra o caminho, e por aí vai. Respeito. Vocês sabem como é; tem nas melhores famílias.

 

Imagino que, se o autor saiu pixando pelas ruas, ele quer paixão de sobra também pela própria cidade. Não é só entre paulistanos, veja bem. Inclui a própria urbe. É um plano muito auspicioso. Amor sempre é bom e São Paulo é um lugar joia. Tem restaurante, cinema, bares, teatros, tudo. Mas o plano tem pegadinha. Porque amor tem que ser a dois; é um acordo para ser saboreado entre duas partes. Lá e cá. Eu amo, você me ama de volta. O certo é assim. E nisso reside o maior desafio ao amor por Sampa: reciprocidade. Não é complicado uma pessoa amar São Paulo. Difícil é essa pessoa ser correspondida.