Você já deve ter ouvido falar em Karma. A principal ideia é a causa e efeito, um conceito tão bom que acabou virando pilar de várias religiões. Com todo respeito, sem querer ensinar o credo ao vigário, imã ou lama, basicamente é o seguinte: se você faz o bem, espere que coisas boas retornem. Se você faz o mal, vai voltar coisa ruim. Parece maldição – mas chama Karma.

 

E é justamente desse conceito, quase praga, que nasce o Credikarma.

 

Um dia vem o troco. Pode ser um chefe carniceiro, pode ser um professor masoquista, pode ser uma paixão-sangue-ruim. Tem sempre volta. Como esta coluna trata de relacionamentos, esqueçamos a pessoa jurídica e acadêmica. Pensemos só na pessoa afetiva.

 

Aqui se faz, aqui se paga. Judiou da namorada (ou namorado; o conceito é unissex), desacatou na frente da mãe ou amigos, causou ciúme de propósito, bateu o telefone na cara, fez chorar no banheiro, deixou esperando sexta de noite, levou pra jantar numa padaria no sábado, flertou “inocentemente” (estou fazendo aspas com os dedinhos), enfim: aprontou ? Espere a fatura.

 

Normalmente essa fatura aparece, primeiro, na forma de pé na bunda. Porque, sinceramente, todo mundo cansa. Se até sua conta bancária tem limite, porque a namorada (ou namorado, o conceito é unissex) não teria? O pé na bunda é só a primeira prestação do Credikarma. Como a pessoa aprontou pacas – por isso recebeu o Credikarma pelo correio, sem pedir – as demais parcelas serão bem mais pesadas, com juros e correção.

 

Logo em seguida ao pé na bunda, quem tem nome sujo no Credikarma encara a solidão. Até tenta sair pro mercado, investindo, convidando todo mundo pra sair – e muita gente vai topar. Mas serão relações vazias.

 

Vazias e imperdoavelmente cíclicas.

 

E dessa ideia de ciclo surge outra parecença entre o Karma e o Credikarma. No Karma, esse ciclo é como um renascimento. As vidas vão se repetindo de maneira virtuosa (espera-se) até a libertação da alma. Já no Credikarma, o ciclo é outro: são os trastes inúteis, lixos afetivos e relações azaradas que vão se repetir na vida da pessoa, implacavelmente. No Karma, esse ciclo chama Samsara. No Credikarma, o ciclo chama Inhaca mesmo. Difícil tirar a Inhaca. Às vezes tem que dividir em vezes, por várias vidas.

 

Difícil, mas tem jeito.  É a transferência de Credikarma, outro conceito roubado do primo mais correto. A cada traste que você encara, a sua fatura diminui um pouquinho enquanto aumenta a do seu par. Você se purifica, paga a sua conta e transfere a pena pros inúteis com quem você sai sem precisar apelar pra Santo Expedito. O custo é alto, mas você vai quitar sua fatura.

 

Muita gente consegue sair do Credikarma – pra nunca mais voltar. É tanta promessa pra pagar, tanto promissória voltando, que a maioria das pessoas nunca mais apronta. Mas, como acontece com o gastador, também existe o canalha compulsivo. Aquele que não se cura, que aplica um golpe atrás do outro. Ah, esse vai vagar eternamente no Serasa gosmento das trevas. Vai fazer caca e vai entrar no Credikarma de novo. Não há outra alternativa.

 

É como bem disse Tom Jobim: quem semeia vento sempre colhe tempestade. Sempre.