Alguma hora você vai arranjar briga com alguém. Claro que vai. Hoje em dia a burrice tem muito espaço e as pessoas se irritam mesmo. O que fazer nessa hora da raiva? Dar as costas é pra seres desenvolvidos. Oferecer a outra face já não deu certo antes. Bloquear no feice é insuficiente; não destila toda a cólera e nem sempre adianta – porque a pessoa rejeitada não fica sabendo. Como conciliar o ódio físico com a civilidade moderna?

 

Eu apelo para as canções. Você canta alto, dança até suar, gasta energia, faz expressões demoníacas (como o próprio rock sugere) – e parte da raiva passa. Mas tem que ser a) o ambiente certo, e b) a música certa.

 

O ambiente é fácil. Pode ser qualquer lugar fechado onde você possa passar ridículo impunemente. Mesma conceito do Air Guitar. O quarto é excelente opção, dá a privacidade e o acolhimento necessários. E tem almofadas. Superimportante ter almofadas; você precisa socar alguma coisa enquanto canta destrambelhadamente. Se houver almofadas-rolinho, daquelas que ficam em pé, melhor ainda: dá pra dar voadora nelas.

 

Já escolher a música ideal requer cuidados, mas não chega a ser complicado. O ponto básico é: tem que conter cólera, energia acumulada e lavar a alma. Não pode ser Adele, Coldplay, essas atrações mais docinhas. E, evidente, tem que ter destino certo. Você tem que cantar com alguém em mente.

 

Se você gostar de rock pesado, são várias as possibilidades. Bandas como Rage Against The Machine, Pantera, Sepultura, Against All Authority, todas elas têm canções boas para desopilar o fígado. Basta digitar “angry” ou “hate” no Google e escolher a sua preferida. Three Days Grace, por exemplo (uma banda do Canadá que nem é tão pesada assim), tem a I Hate Everything About You. É bem dançante: você emagrece de rancor enquanto arregaça os travesseiros da casa.

 

Se você preferir googlar “fuck you”, pode se perder entre as opções. The Stiffs, Yelawolf , Wesley Willis e até os incríveis Smashing Pumpkins têm Fuck You Songs. As duas melhores, na minha modesta opinião, são a da Lily Allen (que, dizem, compôs para o Bush Filho) e a do CeeLo Green. Deliciosas e cheias de vibe, como tem que ser. Rapaz, o colchão vira farrapo. Sai voando tudo quanto é espuma, pena de ganso e mola pelo quarto.

 

Entendi: você detesta música gringa e imperialista? Sem problema: temos Pessoa Nefasta (Gilberto Gil), Não Enche e Odeio Você (Caetano), Caixa de Ódio (Lupicínio Rodrigues, para cantar de pileque), Não Sonho Mais (Chico Buarque), Decadance Avec Élégance (Lobão, para fazer o contraponto), tem inclusive Que Raiva que Dá (Fernando e Sorocaba). Atenção, sempre, com o Wesley Safadão: a música Onde Tem Ódio Tem Amor é, apesar do ódio no título, exatamente o contrário: uma canção de amor. Cuidado.

 

Cantar alto e socar almofadas é como lutar no Coliseu Romano. Ao invés de ir pras vias de fato, a gente faz teatralizações. Expurga parte do ódio, é libertador, não causa ferimentos nem gastrite – e evita cenas abjetas como um lado defendendo torturador, o outro cuspindo na cara em rede nacional.