No inverno, tem o fenômeno do Shrinkage. As temperaturas caem, as pessoas se agasalham – e o principal órgão masculino se esconde, friorento, recolhido por entre a malharia ao redor. Fica um toquinho de gente, algo realmente muito pouco envaidecedor. Não dá para aparecer assim, pela primeira vez, diante de uma pretendente. Ela pode ter uma impressão errada. E pode depois sair falando por aí. Vixe, mulher fala mesmo. Outra dificuldade do inverno é a roupa. É muita malha, é ceroula, é duas meias, é muita coberta – e dá preguiça mesmo. Sim, tem a lareira, o vinho, a tábua de queijos, tudo isso ajuda, e no fim das contas a gente se vira porque o amor não pode parar.

 

Nessa, sobrava para o verão (com justiça) a responsabilidade de ser a nossa grande estação sexual. Dá pra entender: o brasileiro, no calor, já fica oitenta por cento pelado. E a pessoa assim, balangando, jogando vôlei na praia, pegando jacaré, tomando capirinha, isso dá um monte de ideia boa mesmo; o sal na pele é excelente afrodisíaco. Também é quando todo mundo está na melhor forma, comendo saladinha desde setembro, se preparando para desfilar o que Deus criou e o spinning fatiou. Verão é sexo.

 

Não mais. Não do jeito que a coisa está.

 

A partir dos cinco mil e oitenta graus Celsius, temperatura na beira do asfalto, é impossível encostar no outro – que dirá um abraço, um esfrega, uma mão boba. Sujeito levanta a sobrancelha mendicante para a amada e já leva um não. Fica todo mundo gosmento. Reconheço que fluidos e melecas fazem parte do ato em si, mas nesse clima cada ereção é uma desidratação. O resto do corpo vira uva passa, já vi fotos (internet tem de tudo). E os mosquitos, então ? Eles se aproveitam que estamos distraídos, com a pele exposta, e atacam de surpresa. Como os japas fizeram com Pearl Harbor. Dependendo de onde morderem, pra coçar no dia seguinte é muito constrangedor.

 

Mas até o ano passado a gente tinha o alívio sacana: no calor, dava pra tomar banho a dois. Ôpa, que delícia. Horas embaixo da água, conversando sobre a vida, ouvindo Rita Lee. Dava até pra ser menage: você, ela e uma cervejinha, dentro do box. Fazer isso, agora, é baixar a Cantareira em meio por cento. Sai até no Estadão. Os vizinhos olham feio, o síndico vem conversar. A alternativa – substituir o chuveiro pela bacia – é muito pouco sexy e sem glamour. Ligar o ar condicionado também não dá: falta energia. A esposa não telefona mais para avisar que está ovulando, mas pro marido correr para casa porque tem luz.

 

Conclusão: nosso verão ficou broxa.

 

Prevejo o pior. Do jeito que anda o sol, em breve não veremos somente o fim da água. Veremos também o fim do samba. Porque o verão, assim borocoxô, não será mais manancial para a MPB. Nossa música mais legítima terá que buscar inspiração no inverno mesmo. Não é a estação mais adequada para nos representar. Basta conferir o tamanho que fica, no frio, o…, bom, vocês sabem o quê. Não somos assim. Imagine só o que vai sair do violão: “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa, a caminho de Campos de Jordão, pra comer um fondue”.