Ah, Thâmis, Thâmis, moça linda de olhos indescritíveis. Azuis como logo do Skype, como mar de Dubai. Thâmis olha ao redor e balança a cabeça, reprovando a frequência da noite: só tem cafa aqui. Só tem tranqueira.

 

Interrompo na mesma hora, levantando o Bloody Mary em discordância: instante lá, Thâmis ! Cafa é uma coisa, tranqueira é outra. Decida-se. Ela repousa dramaticamente seu copo de Capô de Fusca no balcão (pinga, leite condensado, leite de coco) e pergunta: tem diferença ?

 

Claro que tem, Thâmis. Cafa é cafa, tranqueira é tranqueira. Pesquise pra saber. O cafa vem sendo discutido tem milênios. Há muita literatura e jurisprudência relatando o tipo – enquanto o tranqueira mal sabe ler.

 

Pra começar, o cafa tem lendas. Casanova, Rodolfo Valentino, Julio Iglesias, todos foram sedutores, esquivos,  mentirosos e bons amantes. São, portanto, inesquecíveis. Já o tranqueira é ninguém. Quando muito, dá uma mal dada e corre pro Facebook.  Se torna “nunca mais” rapidinho, enquanto o cafa jamais deixa de ser “só mais uma vez, vai”.

 

O cafa sabe o que faz. Toca onde é gostoso. Mais que lembranças, deixa vestígios. É como encher a cara: a vítima do cafa acorda arrependida, prometendo nunca mais – mas desesperada pra quebrar a promessa.  Já o tranqueira não serve pra nada além da carona. É o famoso “paga-lanche”.

 

O cafa mostra sua imortalidade sexual, seu romantismo incurável, seu conhecimento geográfico do corpo da mulher – pra depois frustrá-la. Só se revela maléfico depois do abate. Já o tranqueira é um traste logo no approach, rindo de boca aberta e mexendo nas genitálias para enfatizar a graça da vida.

 

O cafa se dá bem porque entende do riscado. O tranqueira porque está na hora certa no lugar certo – e vamos combinar que a oferta de homem (qualquer um) está mesmo ruim; muitas vezes tranqueira é o que tem.

 

O Cafa tem magia; o tranqueira tem Viagra na carteira.

 

O cafa é fofo, dá presente, flor, cartinha. Faz música. O tranqueira é grosso e sem futuro. O cafa não precisa ser bonito, o tranqueira depende disso. O cafa pode até pedir dinheiro emprestado – faz parte do charme de amor bandido.  O tranqueira não pode ser duro: é um motivo a menos.

 

O cafa não presta e não pretende mudar. Pra quê ? O tranqueira também não presta – mas gostaria até de ser decente, se você sair de novo com ele. O cafa é tudo que você queria agora pra se vingar do mundo. Já o tranqueira é plano B. O cafa é dengoso, o tranqueira é mais…

 

“…e, você, Lusa, o que você é ?” –  me interrompe Thâmis, se aproximando insidiosamente com os olhos Azul da Pérsia.

 

“Bunda Mole, Thâmis. Bunda mole”- respondo, já me afastando cuidadosamente daquele mar de encrenca.