Viram a Kim Kardashian ? Ela e sua bunda besuntada de Lubrax ? O assunto bombou na gringa. Acho estranho o frenesi: americano gosta mais de peito. Eles não consomem bunda. A gente, sim. É a nossa praia. Bunda requer suíngue e brasilidade: a moça passa, sujeito conta um-dois… e vira o pescoço. Temos tradição. Segundo Giberto Freyre, nossa admiração por glúteos tem quinhentos anos: “um gosto que nasce no madrugador século XVI”.

 

No entanto, apesar desse nosso conhecimento todo, notei por aqui muitas críticas sem fundamento à bunda da Kim Kardashian. Que era grande demais, que o corpo dela parecia uma pera com retenção de líquido, que se espetar um alfinete voa caco de bunda até a Ucrânia. Calma lá, é uma boa bunda, sim. Não é uma bunda clássica, de bailarina, mas tem seu mérito.

 

Muita gente sem entender os critérios de avaliação de bundas. Justo no Brasil. Então, me sinto na obrigação de explicar. Descortinar o que o homem real pensa quando aprecia uma padaria. Esclarecer curiosidades. Posso falar pelos outros: entendo de bunda. Acompanho rebolados desde a década de 70.

 

Na verdade, não existe padrão, nem bunda-alfa, nem a nádega primordial. Todas têm seu valor. O que vale é o desenho. As curvas que consagraram Niemeyer. E isso a Kim tem. Ôpa, se tem. Aquela buzanfa parece o Copan (desde que besuntado de Lubrax).

 

Há, via de regra, dois critérios que sempre provocam celeuma: celulite e tamanho. Vamos à eles, então.

 

Celulite não tem importância. A maioria das bundas é avaliada na calça jeans, e calça jeans é um creme anti-celulite excelente. Na vida de verdade, só se descobre a celulite na praia ou quando um casal está prestes a dividir intimidades. E nessa hora, meu amigo, é camisa da seleção e Raul no som. Dane-se, manja ? Mulheres de verdade têm celulite. Até a Gisele tem. Eu só vi bunda lisinha no site da Vogue. Como a mulher não tinha narinas, desconfio de Photoshop.

 

Tamanho é outra questão. Mesma coisa: pouco importa. Tem quem goste de encher a mão, tem quem prefira menor. Há espaço para tudo – na preferência do brasileiro e no banco do ônibus também.

 

E tem quem ache que admirar bunda é machismo. Concordo que às vezes nos falta tato quando comentamos uma bunda. É sempre muito delicado. Mas aí não é machismo, não: pelo nível das cantadas, o problema é vocabulário restrito. Outra coisa.

 

Admirar bunda com elegância é arte. É quase cavalheirismo. Veja Chico Buarque: “tua beleza é quase um crime; tu és a bunda mais sublime aqui deste covil”.  Nelson Rodrigues, mais moralista que machista, dizia: “Se a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela”. Vinícius de Moraes resumiu: “nádegas é importantíssimo”. Ferreira Gullar: ”a bunda, que (sob uma pétala de azul) celeste, me sorria”. Até Drummond, quem diria: “A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente”.

 

Não é machismo. É Drummond.