Começo esta pequena dissertação falando do Amor Platônico como é mais conhecido. Já digo de cara que é uma versão mais simplória da versão original – aquela que gerou o termo.

 

Vocês sabem como é esta versão simplória. É bem conhecida e popular: há amor por uma pessoa, mas o lance não se confirma carnalmente. Fica mais na vontade, mais na cabeça da gente. Ou falta coragem para se declarar, ou a amada mora longe, ou está na cadeia, sei lá. Cada um sabe sua razão. Então: não gosto dessa versão. Muito frustrante. É bom pra ouvir Maysa, pra compor poesia – mas, na humilde opinião deste narrador, o amor é outra coisa. Ele pede presença, unha nas costas, tapa na cara, massagem no pé. É papo de gente romântica, que acha que dor também é amor. Muito “A Moreninha”  pra mim. Nota cinco.

 

Desta versão mais popular vamos pra versão oficial, a certa. A versão clássica. Estamos na Grécia Antiga, onde encontramos Sócrates. Sujeito muito bom de papo; dava aulas andando, conversando com os pupilos ao redor. Sócrates era tão bom de xaveco que acabou condenado por corromper jovens com suas ideias. A pena seria morrer tomando veneno – a cicuta. Os seus seguidores ficaram desesperados. Choraram, se descabelaram, e teriam ouvido muito Wando se este já existisse. Sócrates então soltou o seguinte consolo: esqueçam o corpo; amem só minhas ideias. Ele continuaria vivo através delas. Deu certo; seus súditos enxugaram as lágrimas e um deles – Platão – até escreveu um livro (Diálogos) contando tudo. Por ter sido Platão o cara que relatou a conversa, este amor pegou emprestado o termo Platônico.

 

Também não gosto muito dessa versão. Serve pra conversa na mesa de bar, impressiona quem ouve, é papo erudito – e só. Que história é essa de amor pelas ideias? Ninguém beija ideias. Coisa de gente cerebral. Nada a ver com amor. Pode ser Platão, Sócrates ou Mr. Catra: dou nota três.

 

A terceira versão de Amor Platônico é a celestial. Dizem que foi Platão quem a concebeu, porque também aconteceu na Grécia Antiga. Zeus estava meio preocupado com os homens. Que, por causa da ciência, por causa do conhecimento, estavam cada vez mais evoluídos – a ponto de serem uma ameaça para o próprio Deus dos Deuses. Então a divindade olímpica separou os homens em duas metades, colocando uma em cada canto do planeta. Separadas, enfraquecidas – e portanto pouco ameaçadoras. Mas o ser humano adora zanzar por aí – e de vez em quando cruza com a sua outra metade. Quando isso acontece, o casal se completa e os dois se tornam… um deus. Que lindo.

 

Adoro essa; tem esperança e magia. Não é aquela coisa frustrada da versão pagã, nem é filosófica como a versão clássica. Imagino as duas metades se reencontrando, uma correndo em direção à outra na praia, de braços abertos, gaivotas voando, tocando “I Can’t Stop Lovin You” de fundo. Sem contar que obriga a pessoa a sair viajando por aí. É ótima: nota sete. Não dou oito porque todo mundo anda sem dinheiro, então como faz pra viajar, comprar dólar, reservar hotel?

 

E aí entro na quarta versão do Amor Platônico: a minha. Modéstia à parte. Que se resume a pegar um livro do famoso pensador – qualquer um – e sentar na frente da lareira, junto com a amada e uma garrafa de vinho. Nina Simone no som. Como Platão é difícil pacas de ler, quase maçante, rapidamente o livro é abandonado e o casal parte pra programas melhores (imaginem qual). Adoro essa. É carnal, é quentinha, é baixo custo. Nota nove. Dez se for inverno. Como agora.