Josefa morava com o marido e cinco filhos em um subúrbio de São Paulo. Ela não tinha boa relação com o esposo. Certa feita, o sujeito exagerou na discussão e passou um pouco dos limites – vamos deixar o B.O. nestes termos. Josi esperou o cabra dormir, pegou os cinco filhos e se mandou. Foi morar na rua. Os filhos não tinham teto – mas tinham escola. Durante os dois anos em que a Josi viveu embaixo da ponte, a molecada nunca faltou a uma aula. Iam sujos mesmo – o que afastava os coleguinhas da classe, de olfato delicado. Como do fundo do poço não passa, a vida melhorou e eles voltaram a ter uma casa. Hoje, na escola onde os filhos estudaram, há uma sala de aula com o nome da Josi.

 

Kelly teve uma vida de filme romeno, daqueles que concorrem ao Oscar. Foi abandonada pelos pais na Europa Oriental. Órfã, embarcou pra América em um avião da ONU. O voo foi sequestrado (sério). O sequestro não deu certo (para os sequestradores) e ela escapou. Conseguiu finalmente entrar nos Estados Unidos. Lá, foi adotada – para, em seguida, descobrir que tinha uma doença complicada. Pra quem já tinha passado por tanta coisa, mais uma. Ela fez tratamento e se curou. Deu tudo certo, finalmente. Quer dizer: pode até ser história de filme romeno – só que com final feliz. Mais chances de Oscar ainda.

 

Sueli era inteligente, esforçada – mas não tinha dinheiro. Entrou em primeiro lugar na faculdade de Medicina da sua região (interior de Minas). A mensalidade era de três mil reais por mês. Pelo visto, medicina é cara até pra quem quer praticar. A prefeitura da cidade, depois de mobilização popular, bingo e programa na rádio, se comprometeu a pagar os primeiros três anos de curso. O curso de Medicina é de seis anos. “E o resto do curso, Sueli, quem paga?” – perguntou o repórter. Ela respondeu: “Não sei. Na hora eu vejo”. Sueli se formou no ano passado.

 

Benedita tem um filho de 20 anos. Que fez besteira e foi em cana. Presídio de Presidente Venceslau. Sete horas de ônibus até lá – fora a grana. É quase mais caro do que ir pra Tóquio. Benedita foi ver o rebento todos os fins de semana durante o ano em que ele ficou guardado. Não ia ser justamente naquela hora que ela ia deixar de dar educação ao moleque. Vamos combinar que a cadeia não é o lugar pra aprender bons modos, concorda ?

 

Ediana se apaixonou por um morador de rua viciado em crack. Choveram críticas. Ela nem ouvia. Amor ensurdece – mas também dá coragem; a pessoa vira super heroi quando está apaixonada (basta lembrar o que o Superman fez com a Terra quando Lois Lane quase foi pra cucuia). Os dois se casaram. Que lindo. Atualmente, eles têm filhos, empregos, casa e nenhum vício. Minto; eles têm um vício, sim: adoram Breaking Bad.

 

Nala, uma cachorrinha (perdão por incluir um bicho aqui), nasceu sem as duas patas da frente. Em vez de ficar se arrastando, aprendeu a andar de pé. Um Cachorrus Erectus, se pudermos fazer piada aqui.

 

Romina entrou na faculdade de Letras. Aos 86 anos. Ia nas festas do Centro Acadêmico e tomava caipirinha de Tang. Se formou aos 89.

 

Clarice começou a cantar com 14 anos para sustentar os pais, que nem a Billie Holiday. Apareceu dia desses na Oprah e fez todo mundo chorar.

 

Marcela apanhou do pai até fugir de casa. Viveu na rua até os 17 – sem perder a virgindade (ela faz questão de dizer). Foi trabalhar em casa de madame, dormindo no quartinho do fundo, como se a vida fosse uma canção do Odair José. Fugiu também dessa segunda casa quando o patrão tentou liberdades. Refugiou-se na igreja. Começou a cantar na missa. Foi descoberta por um diretor de teatro. Virou atriz. Virou Dandara, assumindo o nome da esposa do Zumbi. Atualmente, seus filhos estudam em colégio particular e a família mora superbem. A casa fica em frente a um muro. Nele um grafite explica e incentiva: “bela é a mulher que luta”.