Daí que estou na fila da lotérica, esperando para depositar meu jogo. Evidentemente que serei contemplado, não resta dúvida. E, por isso, não entendo esse povo todo na fila, à minha frente. Chego a ter dó dessa gente, tão desenganada pelo destino. Aviso: a grana é minha. E, repare, eu mereço. Sou pontual, não falo mal dos outros (às vezes falo, mas é sem querer), não ando pelo acostamento e não ataco quem tem orientação sexual diferente da minha.

 

Nesta espera, fico planejando o que farei com a grana. Dezoito milhões. É quase seis milhões de dólares, um Cyborg. Sou meio vintage, ainda coto dólar em Cyborgs. Já adianto que não vou gastar meu prêmio assim, virando biônico. Se estou cheio da nota, pra quê correr que nem o Steve Austin? Gente sem grana que tem pressa. Gente rica tem tempo.

 

A tentação é largar o trabalho assim que pegar meu dinheiro. Até faz sentido; a vida na labuta cansa e vem sempre lotada de aporrinhações. Mas meu plano é diferente: faço questão de continuar no emprego. Só que com outra postura. Estando com a vida ganha, vou obter o superpoder da sinceridade. Vou dizer na lata o que eu acho de todo mundo. Usando de educação, porque a) gente rica é educada; e b) pretendo continuar me divertindo às custas dos superiores e clientes por uns meses. Com maturidade. Vagarosamente, como tem que ser. Quero ter o prazer de vir trabalhar com o dane-se ligado. (Eu ia dizer outra coisa ao invés de dane-se, mas arreguei. Ainda não ganhei na loteria.).

 

Sei que o sonho de todo mundo é sair viajando. Europa a princípio, depois destinos exóticos como Cambodja e Ulaanbaatar. Sinceramente, prefiro ficar andando pela casa de pantufas. Por outro lado, que delícia que seria entrar em uma sala VIP, dessa vez podendo frequentar o lugar. Na única ocasião que estive em uma sala VIP, eu ainda era sujeito mixo: entrei usando o cartão do Walmart como se fosse de cliente Platinum. Foi constrangedor; me pegaram de tupperware na frente do bufê. Uma senhora de cabelo azul teve tanta vergonha alheia, mas tanta, que desmaiou na frente do coquetel de camarão.

 

Sim, a segurança da família me preocupa. Mas aí não precisa nem ter grana; todo mundo tem medo. Acho que o truque é fazer que nem um amigo meu, dono de banco. Ele só anda de táxi (sem ar condicionado). Basta manter a simplicidade – acrescentando excentricidade. Que seja, então: vou comprar um Corsa branco 2004 e mandar blindar. Minhas roupas não mudarão muito: continuarei me vestindo com jeans e camiseta – mas vou trocar a cor da Hering. Usarei pretas, que nem o Steve Jobs. Vou comprar charme ali na Oscar Freire e pagar direto no débito, sem dividir em vezes. Nunca mais terei um metro e setenta e três. Nunca mais careca. Nunca mais devendo no banco. Minto: agora que serei rico, vou dever dez vezes mais. Dizem que os bancos tratam bem melhor quem deve muito. Vou conferir.

 

Frequentarei lugares chiques, mas não abrirei mão dos restaurantes por quilo. Velhos hábitos demoram pra morrer. A diferença é que vou contratar alguém pra ir fazer o meu prato. Mas pra tudo isso acontecer, a fila aqui tem que andar. Fila é chato. Depois que eu ganhar a Mega-Sena, vou dar um jeito nisso. Vou comprar a lotérica toda só pra mim.