Até o Facebook conseguir seus primeiros cem milhões de usuários, em 2008, desmanchar um namoro (um casamento, um affair, um teretetê) tinha regras simples. Havia uma conversa onde a separação era oficializada – e cada um ia pro seu canto. E lá, no canto, os dois ficavam, chorando, chutando lata, tocando violão pra lua, compondo bossa-nova e se recuperando do apocalipse. Depois de uns dias na UTI, as duas partes começavam a sair com independência, primeiro com os primos, depois com amigos e, por fim, até com outras pessoas e pretendentes.

 

Naturalmente, com a distância, a raiva ia passando. Ninguém ficava sabendo da vida de ninguém; se a outra parte estava sassaricando pela noite, era problema dela – que usasse camisinha e fosse feliz. Muito eventualmente chegava uma fofoca ou outra. Durante uma separação, falta de notícia era sempre notícia boa. Como ninguém cutucava a ferida, ela cicatrizava.

 

Agora a diplomacia é outra: o Facebook transformou a vida numa cidade pequena do interior, onde o ex-casal continua se encontrando em todo lugar através de posts e instas. Exemplo: o cara vê a antiga amada na timeline abraçadinha com outro qualquer – e resolve retaliar postando uma foto com a primeira caloura da FAAP que aparecer.  O cara não dá um beijo tem dois meses, mas finge o contrário. Percebem ? Trazendo de volta pra cidade do interior, é como ir na quermesse do Padre Quinho e encontrar o ex-namorado na fila da barraca do beijo – ele cheio de ficha pra gastar. Ou ir comer um cheese-ervilha na pracinha e ver a amada anterior conversando com um cara enquando mexe no cabelo. Perceba: enquanto mexe no cabelo. Ah, tem coisa aí – pensa o sofrido ex-namorado, enquanto engole seis churros pra aliviar a dor.

 

Só que mostrar-se feliz, em um período de luto amoroso, é ofensa. É como sair dançando Earth Wind & Fire na frente de quem quebrou o pé. Aí os dois começam a trocar mensagens, a cobrar respeito, a reclamar atitudes (como se ainda estivessem junto) e a coisa toda vai parar no block. Ou seja: a pessoa tem que terminar na vida real, e depois tem que dar o pé na bunda também na second life. Como se uma vez já não fosse perrengue.

 

Mas virtual não é de verdade. Nas redes sociais só existem momentos felizes. Ninguém dá topada de dedinho ou queima o braço no forno. Ninguém sofre. Muitas vezes é o contrário: a pessoa está chorando mais que Meryl Streep no Pontes de Madison. Mais que Thiago Silva na hora do hino. Mas prefere posar de feliz porque isso vai chatear o ex – e pronto, está todo mundo triste agora. Misery likes company.

 

Bom, como a gente só conhece uma pessoa quando ela se torna ex (algumas compram faca), como não há maneira de controlar as redes sociais, o importante é ter táticas para este período pós-pé-na-bunda. Tem várias. Uma delas, por sinal muito boa, é a “Estratégia do Incrível Hulk”. Ou seja: mudar de cidade. Sair um tempo do feice pra ir no cinema, viajar, jogar bola, comer churrasco, encontrar no bar com os amigos, essas coisas de verdade mesmo.

 

Outra tática joia é a do bombardeiro Stealth. Ele tem um desenho que engana o radar. Quando o inimigo nota, já tem bomba estourando na varanda. Nem precisa sair do feice nessa, basta simplesmente evitar ser detectado. Esconder o que você está fazendo é bem mais interessante do que contar pro mundo. Sumir do sonar é incentivar a imaginação do ex – e nada supera a imaginação. O quê ? Nem a maçã do amor da quermesse do Padre Quinho.