Meu pai costumava perguntar, logo à mesa do café da manhã: e aí, dormiu como se não houvesse dívidas? Claro, ele queria saber se todo mundo tinha sonhado com os anjos. Hoje, nesse critério do meu pai, nem o Eike escaparia da insônia.

 

O principal problema nem é pegar no sono. Isso a TV resolve. São cento e cinquenta canais pra você escolher como prefere ser ninado: ouvindo o Galvão, ouvindo o careca do Trato Feito, ouvindo Morgan Freeman falar do Cosmos. Pra mim, que sou profissional certificado pela Associação dos Mal-Dormidos, o grande inimigo é o xixi no meio da noite. Porque, neste instante, algum nível de consciência a gente tem de ter – ou faz no azulejo. É na perigosa semi-atenção que entram as cismas oportunistas. Coisas que em plena luz do dia parecem ridículas – mas que no escuro viram hecatombe. Já perdi o sono porque não tinha pago o boleto do Controlar, de míseros (e suspeitos) 40 reais. Demorou, mas aprendi a evitar pensamentos adultos. Levanto da cama pra escala noturna repetindo mentalmente “sorvete de paçoca, sorvete de paçoca, sorvete de paçoca” e mantenho essa imagem na cabeça até deitar de novo.

 

Tem outros truques. Copinho de leite morno ajuda a dormir – embora cause mais escalas no banheiro. Banana com canela no microondas é ótimo. Livro de neurolínguística, idem. Na segunda página o sujeito já capota. Filme iraniano, canto gregoriano, sudoku – excelentes aliados. E tem as químicas, pra usar com cuidado. Tarja preta, remédio pra enjôo (atenção: alguns só servem pra enjôo mesmo), relaxante muscular. Melatonina. Já comi melatonina feito pipoca, assistindo televisão. Cheguei a pôr groselha em cima, para parecer pipoca doce. Acho que não funciona. Pra mim, melatonina é invenção de americano, querendo botar a gente pra dormir e aí dominar o mundo. Não vai dar certo – aviso. Pelo menos eu estarei acordado, atento e preparado para a invasão.

 

Dívida atrapalha, mas não é a principal causa da falta de sono. O que tem mais influência nisso, modesta opinião, é outra atribulação da vida adulta: o amor. Pro bem e pro mal.

 

Amor provoca insônia, não há dúvidas. Se o sujeito brigou com a amada (ou amado) fica discutindo mentalmente a noite toda. Remoendo respostas, pensando réplicas, cozinhando arrependimentos. Imaginando o pior mundo: o pé na bunda, a amargura da solidão (pensamentos notívagos são quase sempre pessimistas). Quando o insone em beligerância é casado (ou juntado, ou tico-tico no fubá), ele dorme torto, evitando encostar no corpo ao lado. Saindo da posição confortável em busca de distância. Daí amanhece com dores na coluna e no coração. O quadro piora mais se o sonâmbulo dorme sozinho, se ama à distância: ele não tem como resolver a briga no meio da noite. Encostar o pé na batata da perna alheia, silenciosamente, buscando calor e mendigando arrego… ah, como isso sossega a alma. Só sabe quem viveu.

 

Amor deixa o sujeito acordado, de olhos arregalados e vermelhos. Já vi acontecer. Mas eu acho que a principal função do amor é ajudar. Principalmente em tempos estranhos – como agora. Fazer o quê; sou um insone romântico.

 

O amor embala. Acalma. Mesmo durante crises de grana. É outra pessoa pra ajudar a carregar o peso das coisas. Alguém pra mudar de assunto quando surgem as besteiras que se pensa. Alguém pra fazer a banana no micro. Alguém pra dividir o saldo negativo, metade do vermelho pra cada lado. Alguém para coreografar respirações a dois. Ou simplesmente alguém pra fazer cafuné em você. Cafuné no meio da madruga é o supra sumo da relação amorosa.

 

Prefiro pensar que o amor é muito melhor que melatonina. É produto natural, bom para o sistema circulatório (e outros sistemas), tem poucas contra-indicações. Só tem uma desvantagem: não se compra amor em farmácia de plantão. Sabe, essas que funcionam a noite toda? Então: não adianta correr pra lá no meio da insônia. Não vai ter.