Não que eu ache ruim a mulher mansa, mas prefiro uma mulher mais geniosa. Não sei o que me dá, pode ser até masoquismo, mas diante de um temperamento irascível, diante de um pau de macarrão, rapaz, eu tremo o joelho. Gosto de personalidade, de comida baiana, de curry, de gin tônica. Quando vou comprar pimenta, compro a com mais caveiras no rótulo.

 

Mulher Brava é exatamente isso: tabasco no acarajé. Pra começar, ela sabe se posicionar. Fala o que pensa e dane-se o politicamente correto. Sinceridade, lembra? Não tem medo de se expor, porque é moça preparada. Lê, estuda, assiste – pra não passar por teimosa e burra em vez de firme e esclarecida. Neste ano da graça de 2016 (ano de opiniões sempre mornas, pálidas e borocoxôs), ela se destaca por ser quente e verdadeira. Cansa ver bom-mocismo e cagação de regra o tempo todo. O mundo não é razoável assim.

 

Aí você imagina que as pessoas não gostam de ficar ao lado dela, porque é sempre muita emoção. Ledo engano. Estar com a Mulher Brava é divertidíssimo-íssimo-íssimo. Sempre aparece novidade. Viajar com ela, por exemplo, é absolutamente fascinante – e um pouquinho perigoso. Fascinante porque se um garçom italiano vier com grosseria, leva o nhoque na cara. E aí você tem histórias pra contar na volta. Por outro lado, é perigoso porque a Itália tem acordos de deportação com o Brasil – e você volta muito antes.

 

Agora, paradoxalmente, apesar do perigo constante, ter uma Mulher Brava no círculo íntimo confere certa segurança também – porque ela defende os amigos. Se alguém ousar falar mal de você pelas costas, ela pula na jugular. Já vi acontecer. Só amizades mal-intencionadas que fogem – porque sabem o risco que estão correndo. Meu amigo Mulata estava num churrasco que começava a entrar pela madrugada. Repare: num dia de semana. Numa cobertura com guarda corpo de vidro. Num surto de consciência, quis ir embora. Os convivas, querendo ver o circo em chamas, instigaram a revolução. Cobraram posturas, chamaram de nomes impublicáveis (até mesmo neste blog). Mulata simplesmente ofereceu o celular a quem o ofendia, transferindo a negociação: liga então pra ela. O assunto morreu na hora. A Mulher Brava é um salvo-conduto para a responsabilidade.

 

Outra concepção errada é acreditar que a Mulher Brava causa desequilíbrio num casal, que acaba podando a espontaneidade do parceiro desgovernado. Não é bem assim. Na verdade, ela ajuda a pessoa a ser civilizada, só isso. Ajuda a absorção do indivíduo pela sociedade. Inclusão, manja? Sujeito não tem compostura, belisca os outros, fala alto, cutuca o nariz? Apresente pra moça cascuda que ele vai desabrochar em um ser humano melhor, mais educado, mais focado – se bobear, até mais rico e falando francês.

 

Mas, se a Mulher Brava é assim, tão transparente, tão óbvia, então é fácil identificar esta dama? A ferocidade é insuspeita, escandalosa, explícita? Nem sempre; muitas escondem o temperamento indomável atrás de um sorriso gentil. É preciso saber garimpar, como se faz com as trufas. Anote essa dica boa: a chance de uma mulher ser brava é inversamente proporcional à altura. Quanto mais baixinha, maior é o índice de braveza. Não se deixe enganar pelo salto alto.