Cara Leitora,

 

Não sei como você conseguiu o número do meu telefone. Também não captei a razão de ter me mandado nudes antes mesmo de se apresentar. Acho que o nu tem mais impacto depois que a gente conhece a pessoa – vestida. Se você já começa assim, tão à vontê, o que sobrará pra descobrir? Aonde fica a minha imaginação?

 

Não me entenda mal; estou acostumado a receber fotos de mulheres nuas. Acontece mais no grupo de amigos de infância do zapzap. São amigos muito queridos, que me mantém atualizado das novidades no rico universo das peladas. Outro dia me mandaram uma moça procurando cerveja, provavelmente pro homem dela, com a cabeça enfiada dentro da geladeira. Usava a roupa que veio ao mundo. Achei ela meio periguete.

 

Veja, apesar de ter estranhado essa sua apresentação desinibida, eu pessoalmente gosto de mulheres nuas. Trabalho com cinema nacional. Peladas e palavrões são as minhas principais bandeiras. Quando eu era mais novo, época pré-internet, tinha uma linda coleção de revistas masculinas escondidas no forro do banheiro. Meu sonho era ter uma escada Magirus, pra facilitar o acesso ao acervo. As revistas devem estar lá até hoje. Gosto de imaginar uma civilização futura, remexendo meu banheiro, redescobrindo os gostos masculinos nos anos 80. Arqueologia do nudismo no século XX. Parece tese do Umberto Eco.

 

E mudou muito, a mulher nua. Antes, havia mais personalidade. Cada mulher usava um corte de cabelo pessoal. Hoje, é todo mundo igual – na ausência de pelos, no desenho do corpo, nas lipos. Meio frustrante; parece que você está vendo a Boneca Nua da Acme (já vem com duck face). Os seios também ficaram mais padronizados. A moça chega no médico e pede: me vê dois, tamanho 44, bico fino. E tudo empinado, né? Tudo peito heroico, pra cima, hino nacional. Sinto falta do naturalismo, do peitinho meio caído, pedindo carinho. As barrigas também ficaram todas trincadas. Onde estão os pneuzinhos – aquilo que indica que a mulher toma cerveja e come torresmo?

 

Noto que as fotos estão vindo sem aparecer seu rosto. Isso me dá medo. Li muito Monteiro Lobato, e fico imaginando você, a pelada sem cabeça, dando um rolê pelas matas com o curupira e o boitatá. O saci está atrás da árvore, estilo paparazzi. Lamento, querida leitora, que você esteja colaborando para essa visão equivocada da mulher – só serve do pescoço pra baixo. Deixa a Emma Watson saber.

 

Desconfio que, pela diplomacia atual, eu esteja obrigado a mandar nudes pra você em resposta. Não vai acontecer. Ser bonito não é meu principal predicado. Tenho até certa pancinha, confesso. Mas li na Revista Claudia que o sujeito culto pode ser meio barrigudo. Então vamos ser cultos. Se você quiser, mando a capa de um livro. Você manda um peitinho, eu devolvo um Saramago. Feito?