Chegou novamente uma data comemorativa que chega a causar calafrios em muitas pessoas, onde o maior pesadelo é a comilança de chocolate, a Páscoa. Quem vive de dieta começa a sofrer antecipadamente, alguns já restringem muito a alimentação para poder se esbaldar nos chocolates. Outros já começam a comer antes, para assim se sentirem mais confortáveis para abusarem na data festiva.

Mais um ano em que a Páscoa levará a culpa pelo excesso de peso de muitas pessoas. E logo chegarão outras datas irresistíveis, levando quem tenta emagrecer ao desespero. Mas, afinal, será que é esse o caminho, a restrição?

Quando eu iniciei o trabalho de obesidade e transtornos alimentares também acreditava em uma série de regras pré e pós- datas comemorativas, passei anos trabalhando com esse pensamento limitado e aceito por muitos como verdadeiro até nos dias atuais. Será mesmo que esses sacrifícios funcionam?

A questão que levanto aqui é motivada pelas punições que muitas pessoas impõem a si mesmas. Vivem restringindo a alimentação, caem sempre no mesmo buraco, a compulsão aumenta e voltam à restrição. Passam anos de suas vidas nesse círculo vicioso, não vivem, estão presos a uma ideia errônea sobre prazer, felicidade e peso. Nas festas de família em vez de curtirem o momento, se alimentarem de amor e do afeto de todos, ficam presos à neurose do que podem ou não comer.

A data comemorativa em si acaba sendo a vilã de uma vida desregrada, de escolhas erradas e falta de equilíbrio. O foco está distorcido, ao invés de se preocuparem tanto com o coitado do chocolate se colocassem o foco em como se estruturarem melhor emocionalmente, buscassem relacionamentos mais saudáveis, satisfação profissional e cuidados com a saúde, a comida perderia esse peso que vem sendo atribuída a ela.

Concordo que nem sempre as pessoas têm as mesmas oportunidades, que não podemos generalizar, mas me baseio em fatos reais, casos que acompanho por anos de atuação clínica, por leitores que enviam e-mail e mensagens desesperados por não saberem como mudar as suas vidas e perderem peso. Saber o que devem fazer para emagrecer até sabem, mas falta motivação interna para mudar a realidade que se encontram.

É claro que o excesso de chocolates, doces e guloseimas não faz bem à saúde, que quando podemos optar por qualidade, esse quesito faz toda a diferença no peso corporal e na saúde. A questão é muito mais ampla, envolve o autocuidado, o amor próprio, o de se dar o que faz bem por uma opção de vida, não imposto por regras para satisfazer um padrão que a sociedade prega como sendo normal.

É conseguir enxergar que tudo que faz mal, destrói, que esse movimento é uma agressão e se cuidar antes de tudo é um ato de amor a si mesmo. A Páscoa não tem culpa nenhuma, nem o chocolate. Talvez o grande vilão seja você, por não se permitir ser autêntico consigo mesmo e assumir que se está acima do peso, o grande culpado é você mesmo, por suas escolhas.