Durante a história da humanidade, iremos nos deparar com diversos exemplos de pessoas que por sua dedicação a um objetivo foram mudando a realidade que viviam, conseguiram transformar suas ideias em grandes feitos que nos beneficiam até hoje. Essa é uma característica maravilhosa, muitas pessoas conseguem manter a determinação para chegarem a um ponto de satisfação final, que é o caso de Einstein, Thomas Edison e outros.

Se por um lado a persistência pode ser fantástica, ela pode ser bem angustiante para aquelas pessoas que ficam perdidas no meio do caminho, pois derrapam no próprio perfeccionismo, passam horas refazendo os seus projetos. Tem aquelas que nunca irão terminar o que iniciaram, pois, o próprio julgamento é tão cruel que acabam desistindo.

É tão fácil nos perdermos na ideia de que ser perfeccionista é uma qualidade de muito valor, e muitas vezes reforçamos esse comportamento em nossas crianças, nas pessoas das quais convivemos, mas na verdade, isso é muito perigoso, pois valorizamos um jeito de ser que visa nos fazer perfeitos para que o outro nos valorize, a crença de que o que eu faço é o que sou. Vale lembrar que entre o preto e o branco existem várias nuances de cores, e que existem vários níveis de perfeccionismo, portanto, deve haver pessoas que lidam bem com esse jeitão de ser e que colhem ótimos frutos desse comportamento, mas na minha experiência clínica ouço muitos relatos de angústia e sofrimento, e é esse o foco desse texto.

O perfeccionista está aprisionado na ideia de que não pode errar por medo de encarar a vergonha e o julgamento do outro, ele se esconde atrás de uma máscara, porque tem medo de falhar. Em algum momento da vida ele aprendeu que não pode errar, que precisa ser o melhor, não desenvolveu ferramentas para lidar com as frustrações que nos deparamos em diversas situações da vida. Falhar é uma ferramenta poderosíssima quando bem utilizada, pois quando entendida na sua essência ela funciona como uma mola propulsora. É através das nossas falhas que nos fortalecemos e nos tornamos aptos para encarar os desafios, nos tornamos cada vez mais resilientes.

Desta forma podemos entender que quando entramos nesse círculo vicioso de sermos perfeitos, estamos nos condenando a nos sentirmos constantemente insatisfeitos e insuficientes.  Não é preciso que o outro nos desvalide, nós fazemos esse papel. Somos os nossos próprios carrascos, estamos nos autoavaliando o tempo todo, um crivo rígido, disfuncional, um processo destrutivo e cruel.

Mas, por outro lado, quando conseguimos identificar esse sistema de comportamentos podemos buscar recursos para mudar, vamos aprendendo a lidar com a nossa vergonha, com o medo de não agradar, e vamos desenvolvendo maior resistência frente aos desafios. Se conseguirmos acolher nossas falhas, seremos mais generosos e amorosos com nós mesmos, vamos nos sentindo mais confortáveis dentro desse novo jeito de ser, o medo da falha é acolhido e transformado em aceitação. Não é possível agradar o tempo todo, não conseguimos viver sem falhar, somos nós humanos em constante evolução.

Talvez essa mudança exija muita terapia, pois é necessário trabalhar todos os aspectos que dispararam esse jeitão de ser, e quando falamos em mudanças comportamentais, não podemos esquecer que o emocional e todas as experiências da infância estão por trás ancorando o que somos, portanto não existe uma fórmula única, é um trabalho que envolve muita coragem de olhar para si mesmo.

Mudamos a forma de agir aprendendo a fazer o nosso melhor, vamos nos fortalecendo utilizando as nossas forças e virtudes, aceitando os nossos pontos de maior vulnerabilidade, e assim vamos ampliando o nosso olhar buscando um estado de maior equilíbrio.