Talvez o título desse texto não faça sentido algum ao ser lido em um primeiro momento, mas se você olhar com atenção pode ser que faça o mesmo com o seu corpo. Nem sempre nos damos conta que comemos mal, vamos apreciando e consumindo alimentos que são vendidos em vários locais, muitos deles são irresistíveis, e acabamos comendo até com os olhos.

Achamos que o prazer pela comida deve ser o foco principal, e é claro que é extremamente importante gostarmos do que estamos ingerindo, mas nem sempre é possível comermos tudo o que queremos, até porque uma boa parte do que é vendido faz muito mal para a nossa saúde.

Comer é sim um ato que promove muito prazer para um grande número de pessoas, pois acreditem, tem pessoas que comem porque precisam, mas quase não têm fome ou mesmo esse desejo de comer desenfreado que muitos de nós temos. Desde bebê aprendemos que comer relaxa e é bom, mas o que muitas vezes não aprendemos é que comer também exige boas escolhas e parcimônia.

Vamos aprendendo a nos alimentar e a gostar do que nos é oferecido em nossa família de origem, desta forma entendemos que é correto comer de determinada maneira, mesmo que não seja de forma correta e equilibrada. Há muitos anos era muito diferente, eu mesma tive a oportunidade de nascer em uma época que eu andava a cidade toda de bicicleta, corria muito, os alimentos eram bem mais saudáveis, então era muito difícil ver pessoas sofrendo com a obesidade. Comidas eram mais saudáveis e podíamos brincar ao ar livre, mexendo muito o corpo.

A variedade de alimentos era muito limitada, não existiam docerias, pizzarias, hamburguerias, churrascarias como vemos hoje, a cada quadra um desafio a ser enfrentado. Fica muito difícil controlar o desejo de comer com tantas ofertas tentadoras, eu entendo perfeitamente e vejo o quanto as pessoas sofrem. Além de não conseguirem se controlar, ainda passam pelo crivo da sociedade que estimula a ditadura do corpo magro.

Por um lado uma exorbitante oferta de alimentos não saudáveis e por outro a cobrança pelo corpo magro. Um conflito que há anos estamos enfrentando, algumas pessoas com mais facilidade e outras com muita dor e dificuldade. Para quem trabalha nessa área é muito claro a forma com que as pessoas reagem a grande oferta de alimentos, sabemos e acolhemos a dor dessas pessoas, mas como profissionais agimos conscientizando e também trabalhando a autorresponsabilidade pela mudança de atitudes.

Uma coisa é ser compreendido e acolhido em sua dor, em sua história de vida e outra é ser negligente, e quando não se busca ajuda profissional, somos relapsos com o nosso corpo, nossa saúde e consequentemente com a nossa vida. Sempre pergunto aos meus pacientes que tipo de combustível colocam em seus carros, sempre ouço deles que providenciam o que é recomendado, carro a gasolina precisa de gasolina, então por que colocam qualquer combustível boca adentro?

É importante pensar sobre esse aspecto, em como estão se matando aos poucos, ingerindo muito lixo, isto é, comida que não nutre o corpo, e sim inflama e adoece. Que aspecto de si mesmo está comprometido com a dor, com a não aceitação, com a destruição? Difícil aceitar isso, mas é exatamente o que acontece. O não cuidado com você revela muito mais do que imagina, mostra um lado destrutivo e que precisa ser cuidado.

A obesidade revela além das dificuldades com o controle alimentar, também uma falta de amor por si mesmo, sendo necessário ampliar o olhar e buscar formas, tratamentos, profissionais que lhe ajudem, mas é preciso ficar claro que a mudança não vem do externo e sim do interno. É preciso fazer por onde, se motivar para conseguir implementar mudanças de hábitos e o caminho é sim o resgate de si mesmo, da autoestima e do autocuidado.

Essa doença é o grande desafio de nosso século e envolve muitos aspectos que ainda são desconhecidos pela ciência, mas o mais importante é saber que é possível fazer a nossa parte, que muitas ações devem partir de nós mesmos, do desejo real de mudar.