Essa é uma pergunta um tanto estranha a princípio, pois ao nos tornarmos pais enveredamos por caminhos que nos levam a agir em benefício dos filhos, mas na verdade posso afirmar que é muito frequente o fazermos por nós mesmos.

Em nome do amor buscamos controlar os passos de nossos rebentos desde pequenos, e é claro que nessa fase os pais realmente sabem mais a respeito do que é certo ou errado, mas com o passar dos anos tudo muda e é preciso estar atento à linha tênue que separa o que é certo para nós e que o que realmente é benéfico para eles. Nem sempre os nossos comportamentos em relação aos filhos são conscientes, saudáveis, e na tentativa de fazermos o melhor ignoramos os limites que definem esse delicado relacionamento.

Quando os nossos pequenos correm pelo gramado podemos deixar que eles experimentem cair para assim aprenderem a levantar, ou podemos correr ao lado deles tentando impedir que eles caiam a todo custo. É claro que dá uma dorzinha no coração quando se machucam, mas isso vai acontecer em algum momento e precisamos dar espaço para que aprendam que cair pode não ser tão ruim assim.

Mas é claro que esse processo não é fácil, passamos meses nos organizando para que quando o bebê nasça tudo esteja pronto, escolhemos o melhor cirurgião, hospital, pediatra, berço, cadeirinha de carro, etc. Depois quando nascem não dormimos direito e o mínimo suspiro que eles dão corremos para ver se está tudo bem. Passamos a viver para eles e tentamos controlar tudo ao redor para que permaneçam protegidos.

Mas a grande maioria dos pais acaba esquecendo de que conforme os filhos crescem eles irão sentir a necessidade de alçar voo, de se arriscarem na vida, de caírem e se quebrarem, pois são estas experiências que os tornarão fortes. Porém há muitos pais que não conseguem sair do lugar de cuidadores e professores e aí começa uma série de problemas.

O foco aqui não é questionar o certo ou errado, pois cada pessoa terá o seu ponto de vista, mas de jogar uma luz em um aspecto bem importante que é quando a identidade de pai e mãe se torna mais importante do que a própria relação com o filho. Por medo de perderem a função passam a querer controlar tudo o que fazem e não percebem que os filhos precisam seguir os próprios caminhos, mesmo que se machuquem algumas vezes.

Por estarem tão obcecados em agir como cuidadores se perdem ao deixarem de estar mais inteiros, presentes de coração quando eles crescem, e acabam desempenhando o papel de pais no modo automático. O lugar de superioridade que lá na infância foi fundamental coloca o filho já adulto em um lugar de inferioridade, o que interfere diretamente no estabelecimento de um relacionamento saudável entre pais e filhos.

Muitos ainda esperam que seus filhos sigam os caminhos que acreditam ser o ideal, com o intuito inconsciente de satisfazerem os seus desejos não realizados, o que mais uma vez invalida o desejo do filho de seguir o próprio caminho. Mas também pode ser que a família tenha um ramo de negócios há gerações, o que faz a situação complicar ainda mais, pois apesar de entendermos a importância de dar prosseguimento a uma tradição, uma história, ainda assim cada um tem o direito de escolher o seu próprio caminho.

O importante não é julgar a situação, e sim entender verdadeiramente a necessidade e importância dos filhos seguirem o seu coração e assim aprenderem a lidar com os obstáculos da vida. Lembrando que os pais devem estar disponíveis para orientá-los sempre que eles precisarem, afinal não é nada fácil equilibrar essa equação e, na verdade, nunca deixaremos de querer cuidar deles, não é mesmo?