Acredito que vocês já tenham ouvido alguém comentar: fulano é muito frio. Afinal, o que será que isso significa? Talvez alguns respondam que essas pessoas frias têm coração de gelo, não têm sentimentos pelo próximo, sempre tão duras. Mas eu te pergunto, será que foi sempre assim?

Se pararmos para pensar por um instante e trouxermos a imagem de um bebê e de uma criança à memória agora, você verá que as lembranças serão sempre recheadas de risadas, de muita energia. Não há tempo ruim para um bebê e para uma criança, a não ser quando caem e se machucam, quando estão com fome e a comida demora a chegar, quando levam uma bronca dos pais, caso contrário, são espontâneas e felizes. São generosas, brigam e logo fazem as pazes com os amiguinhos, são inocentes e cheias de afeto para compartilhar.

O que pode ter acontecido no decorrer da vida deles para que isso se transforme de forma tão drástica que se tornam pessoas frias, com coração de gelo? Contei para vocês até aqui uma infância feliz, tranquila, crianças cercadas de amor, mas quando as mesmas estão inseridas em lares onde são constantemente machucadas, seja verbal ou fisicamente, toda essa alegria se apaga.

Muitas vezes essas agressões passam despercebidas para quem está olhando de fora, mas na intimidade ela ecoa forte. A sensação de abandono, de desrespeito, de desconsideração se manifestam em várias ocasiões. Uma bem comum é ser sempre culpado e responsabilizado pelo erro do irmão, apanhar porque na escola sofreu bulliyng, ser sempre culpado porque não fez algo do jeito que alguém queria, um desenho que caprichou tanto e não é valorizado. É claro que em um momento ou outro isso pode ocorrer e não gerar grandes problemas, mas quando essas agressões são contínuas, a criança cresce com medo, desconfiada, com baixa autoestima, acha que faz tudo errado, que não é capaz de conquistar algo.

Essas dores contínuas vão fazendo com que o coração, que antes era só alegria, vá se fechando como uma forma de se proteger das dores que sente.Por isso, quando nos deparamos com pessoas agressivas, que reclamam muito, que sempre acham algo ruim em tudo que fazemos, é preciso parar e pensar que essa pessoa está triste, infeliz.

Não é fácil lidar com a própria dor e com a do outro, as mágoas, as feridas podem estar muito abertas ainda, qualquer estímulo que lembre esses momentos podem gerar dor, então alguns podem recorrer à máscara da frieza, do todo poderoso, daquele que dá conta de tudo sem precisar de ninguém, como forma de proteção. Ninguém gosta de ser magoado e às vezes a bagagem é tão pesada que não se tem nem recursos internos para começar a limpar e perdoar o passado.

Mas calma, primeiro é preciso olhar para tudo o que aconteceu, abrir a possibilidade de se harmonizar com as pessoas que o magoaram, para poder limpar o coração e se abrir novamente para o mundo. Ir olhando, limpando até que chega um momento em que tudo fica para trás, você olha, identifica, mas não dói.

O passado sempre fará parte de sua história, bom ou ruim sempre servirá como experiência e cabe a cada um de nós buscar recursos e ajuda para mudar o que nos prende a ele, para assim seguirmos livres para viver a vida com intensidade.

A frieza é uma máscara poderosíssima, ela cria uma separação entre o eu e o outro, afasta as pessoas ao redor, não permite que o coração se abra, trazendo uma falsa sensação de proteção. Mas a verdade, meu amigo, é que as máscaras nos desprotegem também, talvez ela tenha sido útil em algum momento de sua vida, mas quando ela cola e você se torna ela, aí sim você tem mais um problema a enfrentar, tirar ela e descobrir o seu verdadeiro eu, deixar fluir o amor que tem dentro de si e também ser amado.

A caminhada é dura? Claro que sim, não posso negar, mas cabe somente a você mudar.

 

“Não existem pessoas frias, existem pessoas que aprenderam bloquear seus sentimentos.” Dr. House